quarta-feira, 20 de março de 2019
Política

Vamos avançar ou ficamos na mesma?

As primeiras articulações sobre as reformas, agora já na fase do Congresso, trazem alguma preocupação. Depois de um início de governo com direito a cirurgia, turbulências oriundas do caso Queiroz, em que, depois de tanto tempo, o assessor do então deputado Flávio Bolsonaro volta a aparecer com declarações ainda muito confusas, mas admitindo ilegalidades e afirmando que seus superiores nada sabiam (ele teria feito tudo por motivação própria)! Além disso, temos a incrível decisão do ministro da Educação de solicitar filmagem das crianças nas escolas para propaganda política, utilizando ainda o lema da campanha política do seu presidente. Só percebeu a bobagem após as contundentes críticas que recebeu. Vão se multiplicando pequenas crises que surgem do nada ou de fatos criados inacreditavelmente por membros do governo ou filhos do presidente. O que ganha o governo com essa estapafúrdia declaração de seu filho Eduardo de que os brasileiros apoiam o muro de Trump? Quem deu procuração para ele falar uma bobagem dessas? O presidente ainda faz uma declaração exaltando um ditador do Paraguai, que não foi apenas um ditador, mas um torturador, assassino e ladrão. Será que pensa que os paraguaios amam aquele que os oprimiu por 35 anos? Então ficamos assim, para citar o filho, ainda não mencionado, basta lembrar da crise que culminou com o afastamento do ministro Bebianno. Pode até ser que o caminho deveria ser mesmo a demissão, mas qual a razão de um filho, que não possui representação no governo, tornar-se fator determinante numa ação que deveria ser exclusiva do presidente? Aquilo ali não é assunto de família, é assunto de um poder institucional! A esses fatos, cuja maioria poderia ter sido evitada apenas executando a performance da “boca fechada”, assistimos alguns outros ministros escorregando na empáfia de seus cargos, como o chanceler que consegue enxergar o…

A Ressurreição pelas urnas

O livro “A ressurreição do General Sanchez”, publicado pela Editora Paz e Terra, em 1981, reeditado em 1997 pela editora Geração, conta a história de um ditador latino-americano que, percebendo o esgotamento de sua ditadura, decide terminar seu regime e escolher um substituto. Usando as técnicas da engenharia genética, manda fabricar um clone. O herdeiro seria idêntico ao pai, mas enquanto crescia, foi mudando de personalidade e de ideologia. Descobriu-se depois que a CIA havia produzido outro clone de direita, neoliberal; o Vaticano tinha produzido um democrata cristão, carola. Os clones foram sendo substituídos clandestinamente pelos serviços de espionagem dos países. O ditador aceitou pacientemente essa variação, até descobrir que os soviéticos também tinham o seu clone. Comunista ele não aceitou. O General mandou matar o último clone, o comunista, e engravidou três mulheres para escolher como seu herdeiro o primeiro filho que nascesse. Para surpresa de todos, cada mulher deu à luz cinco meninos, todos com cara e mãos de demônio. O ditador então legalizou os partidos e autorizou uma eleição livre, universal, desde que disputada entre os quinze meninos, seus filhos demônios. Não esperava o caos provocado por uma eleição com tantos candidatos, todos com alta taxa de rejeição pelos eleitores que não queriam escolher entre diabos, ainda que filiados a partidos diferentes. Ao sentir os limites de seu poder para controlar e organizar sua sucessão, o General mandou dizer ao povo que tinha decidido morrer, para ressuscitar quando o país precisasse dele outra vez. E desapareceu. Em um estilo de realismo fantástico, o livro descreve o período democrático como um grande carnaval, em que a população brinca nas ruas, os constituintes dentro do parlamento, enquanto a desordem se espalha, até que o General ressuscita, durante a tristeza e a ressaca da quarta-feira de cinzas histórica. Ainda é…

Não vai ter Fascismo

Entendo que a esquerda brasileira talvez esteja ansiosa pelo fascismo, para poder usar a tirada intelectual “tempos sombrios”. Mas não vai rolar. A eleição de Jair Bolsonaro está a um oceano de distância do nazi-fascismo – felizmente. E esse discurso da esquerda é mais um que vai virar pó em breve. Eu explico. Há algumas circunstâncias parecidas entre o Brasil de hoje e a Itália pré-fascista e a Alemanha pré-nazista. Havia uma grave crise econômica e aquele desejo ufanista de ver o seu país em melhor situação. Havia inimigos internos e externos a serem combatidos. Em todos os casos, a maioria da população se uniu em torno de um “plano C” – ou seja, os planos padrões com caminhos mais previsíveis e conhecidos foram descartados, e surgiu um terceiro caminho, bastante novo, imprevisível, e com a força de uma avalanche, impulsionados por sentimentos nacionalistas. Eu comparei os cenários acima e falei sobre fascismo e nazismo com a minha mãe, foi interessante a reação dela: “poxa então temos que temer que isso aconteça no Brasil”. Vejam como é fácil assustar alguém com esse assunto... As pessoas não param para estudar a história e analisar a situação de forma fria, e aí se tornam presas fáceis de qualquer discurso. Na minha opinião, há dois fundamentos básicos sem os quais o nazi-fascismo brasileiro não tem condições de existir. Vamos a eles. O primeiro aspecto diz respeito à essência dos movimentos nazi-fascistas. São movimentos totalmente auto-afirmativos, de expressão e agressividades postas na mesa, aplicadas no dia a dia. É impossível que esses movimentos ocorram de forma sorrateira, sem conhecimento da sociedade, pois seu acontecimento depende de auto-afirmação. Por exemplo: um fascista jamais esconderia que é fascista. Pelo contrário, ele precisa de símbolos a mostra, de ações para exemplificar. Veja, se você passar e chamar…

Facilitar convívio com a família é a melhor política contra a violência

Por Marcelo Biar* O Brasil avança na política errada do encarceramento em massa, andando de mãos dadas com a negação de direitos. Já somos a terceira nação com maior número de pessoas privadas de liberdade e, só no Rio de Janeiro, já temos mais de 60 mil presos. Cada um destes toca um núcleo familiar que tem um vazio na mesa do jantar. Agrava este quadro o fato dos presos não serem de origem social aleatória. Quase todos são de camada popular. Além disto, no Rio,  temos presídios em apenas oito dos 92 municípios do estado. Receber a visita de familiares é missão quase impossível para boa parte dos encarcerados, o que representa um problema mais grave do que muitos podem prever. A visita, além de ser um direito do apenado garantido pela constituição, se constitui como um fator de ressocialização. Quem conhece o universo penitenciário sabe que o dia de visita é sempre o mais tranquilo nas unidades prisionais. É a presença constante dos entes amados que pode “disputar” o futuro do preso. Muitas vezes sua reincidência ou não no universo criminoso é definida pelo papel que filhas, filhos, esposas, maridos, mães e pais, exercem sobre ele. Não podemos ignorar a família do preso que, a despeito de não ter cometido delito algum também sofre e necessita do contato com o ente preso. A pena é de mão dupla e o equilíbrio da família também passa por este contato. É importante, apesar do crime cometido, que um filho conviva com seu pai, mesmo cumprindo esta etapa. O sofrimento do isolamento é uma extensão descabida, de pena. É a punição que se estende aos que não cometeram crimes. Baseado nisso organizei o Projeto de Lei que prevê gratuidade de passagem para visitantes de presos, em seus dias de visita. Para…

Assassinos de Marielle

Diz uma lenda árabe que uma coruja invisível sai de dentro de pessoas assassinadas para perseguir os assassinos. O Brasil deseja que essas aves identifiquem quem matou Marielle e Anderson. Mas precisamos também buscar assassinos históricos invisíveis, que não apertaram o gatilho, mas criaram condições para o crime. Há séculos, latifundiários e governantes deram passos na direção do assassinato de Marielle. Ao negarem a reforma agrária para ex-escravos e escolas para seus filhos, conduziram milhões de excluídos ao desemprego, ao desespero, à violência, criando um país ineficiente e injusto. Marielle foi morta por bandidos, mas os assassinos não cabem em um carro: são governantes que ao longo de décadas se negaram a fazer as reformas de que o Brasil precisa. Em vez disso, corromperam prioridades, negaram escola de qualidade e assistência à saúde. Marielle e Anderson foram mortos por sete tiros de pistola e cinco séculos de injustiças e ineficiências. Esperamos que as investigações descubram quem atirou, que a justiça julgue e os condenados sejam punidos. Mas isso não basta. Será preciso que cada brasileiro assuma a luta de Marielle contra os assassinos históricos, transformando o Brasil em nação com economia eficiente e democracia estável, com oportunidades iguais para todos, sem preconceito, respeitando a diversidade de religião, raça, orientação sexual. Que a polícia e os juízes cuidem dos assassinos e que os cidadãos e eleitores cuidem dos culpados históricos. Que os assassinos sejam presos e que o Brasil seja reformado.

Por trás de uma nota de jornal

Num casamento de luxo entre um jovem político em ascensão e uma jovem da fina flor social, os noivos assomam à porta da igreja para os cumprimentos  de praxe, e de repente  um expectador ergue um cartaz com a frase “não procriem!” O episódio data de uma década atrás, mas foi relembrado pelo jornal O Globo (10/7/2017) para ilustrar o comentário de que a política brasileira parece uma grande família. Há uma “família” especial detrás do fato. É que o noivo do episódio, hoje parlamentar em evidência, resolveu explicar à imprensa que não é genro de um dos homens fortes do atual presidente da república: “Não é meu sogro, ele é casado com minha sogra”. A sogra, por sua vez, é filha de um senador, já falecido. Ora, o homem forte em questão já foi conhecido como “genro do genro”, por ter sido casado com a filha de um senador importante por causa do sogro e neta de um presidente da república. Já o tal parlamentar é filho de um ex-prefeito e primo de um senador, integrante de um dos clãs que dominam a política de um estado brasileiro há mais de 50 anos. Seria fastidioso dar nomes, que ainda por cima nada diriam a um público alheio. Mas como a nota de jornal acentuava a semelhança da política com uma “grande família”, ao mesmo tempo em que se reconhece que um capitalismo de famílias é um capitalismo de quadrilhas, vale a pena rememorar o fenômeno do patrimonialismo, a forma familial assumida pelo poder no Brasil, tanto no plano da organização estatal quanto no das relações sociais.  É o que herdamos do transplante do aparelho de Estado ibérico. Um texto original para a compreensão dessa forma é o Livro da virtuosa benfeitoria, escrito na primeira metade do século XV pelo…