segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Política

O papel de governar e os atos impensados

O mais recente ato do presidente Bolsonaro remete-nos à disposição de indicar seu filho Eduardo para a Embaixada nos EUA. Diversas manifestações criticando esse desejo presidencial ainda estão reverberando por aí, e pelas críticas contrárias é que o presidente acha que está certo, mas a primeira imagem que me veio à mente foi como se dariam as articulações com as diversas instituições americanas. Imediatamente pareceu-me possível um diálogo entre a presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, e o novo Embaixador em que ela perguntaria: "O Senhor falou, há algum tempo, que para fechar o STF bastaria um cabo e um soldado. Senhor Embaixador, o senhor é democrata?" Pois é, parece não bastar ser amigo do presidente dos EUA, já que a Câmara de Representantes é controlada pelo Partido Democrata. Estamos diante de um verdadeiro tiroteio nas redes sociais em que as pessoas se digladiam em ataques e defesas aos feitos do presidente nestes seis meses e meio de governo. Não podemos deixar de mencionar alguns atos e comportamentos do presidente, no mínimo estranhos, além desta disposição de nomear o filho embaixador. Para muitos, puro nepotismo. Causou inúmeros problemas na tramitação da reforma da Previdência, não dialogou e atacou àqueles que defendiam o projeto e, pior, decidiriam o seu destino. Interferiu em favor dos policiais e afins, mesmo aqueles que não se arriscam. Qual a razão de um policial legislativo, que vive em palácios luxuosos da Corte em Brasília, precisar se aposentar com pouco mais de 50 anos, com salário integral e reajustes idênticos ao da ativa? Os policiais merecem proteção mesmo, pela natureza de seu trabalho. Porém, isso pode ser feito de diversas maneiras, e com certeza a melhor não é jogando contra a própria proposta do governo e que foi elaborada por sua equipe econômica.…

15 de maio: e os estudantes voltaram – um dia para oposição nenhuma botar defeito

Um milhão de pessoas nas ruas Sim, um milhão de pessoas nas ruas nas 221 cidades do país neste 15 de maio de 2019 expressando uma mudança de clima emocional que, há 6 meses, registrava rejeição absoluta e virulenta a todos que demonstravam pertencimento ao campo progressista. Que mudança! Não houve sequer rejeição dos passantes aos atropelos que naturalmente, diante dos transtornos que uma mobilização como é capaz de gerar. Ao contrário, viu um apoio generalizado a ponto de transeuntes e passageiros aderirem àquele grande evento. Acontecimento em momento de profunda divisão política que ocorre, por um lado, revela a frustração generalizada no país com o desemprego, inflação, estagnação, desesperança com o destino tomado pela política em curso que aponta zonas de incertezas para a continuidade e o desenvolvimento da democracia. Por outro lado, a tendência cada vez mais forte de militarização-bonapartista na construção de um estado policial-judicial com profunda militarização das universidades como no dia seguinte às mobilizações assistimos a decretação imediata por Bolsonaro de intervenção nas Universidades, colocando o Chefe da Casa Civil como responsável pela nomeação dos Pró-Reitores, Diretores de Centro e de Unidades e dos Chefes de Departamento das IFES (Instituições Federais de Ensino Superior). Em meio a este cenário, o já histórico 15 de maio traz intensamente a lembrança da força da passeata dos 100 mil, após a morte do estudante Edson Luis, no Rio, em 1968, mesclada com passeata dos 100 anos da Abolição, em 1988. Embora o evento do gênero mais latente na memória nacional seja o levante de 2013, certamente que ele possuía inigualável distância das propostas, foco e consistência das reivindicações das manifestações do 15. As manifestações de 2013, supostamente, colocava-se contra tudo e todos, e, aparece como um levante de ações direta, anarco-libertário exigindo mais democracia e contra a corrupção.…

Vamos avançar ou ficamos na mesma?

As primeiras articulações sobre as reformas, agora já na fase do Congresso, trazem alguma preocupação. Depois de um início de governo com direito a cirurgia, turbulências oriundas do caso Queiroz, em que, depois de tanto tempo, o assessor do então deputado Flávio Bolsonaro volta a aparecer com declarações ainda muito confusas, mas admitindo ilegalidades e afirmando que seus superiores nada sabiam (ele teria feito tudo por motivação própria)! Além disso, temos a incrível decisão do ministro da Educação de solicitar filmagem das crianças nas escolas para propaganda política, utilizando ainda o lema da campanha política do seu presidente. Só percebeu a bobagem após as contundentes críticas que recebeu. Vão se multiplicando pequenas crises que surgem do nada ou de fatos criados inacreditavelmente por membros do governo ou filhos do presidente. O que ganha o governo com essa estapafúrdia declaração de seu filho Eduardo de que os brasileiros apoiam o muro de Trump? Quem deu procuração para ele falar uma bobagem dessas? O presidente ainda faz uma declaração exaltando um ditador do Paraguai, que não foi apenas um ditador, mas um torturador, assassino e ladrão. Será que pensa que os paraguaios amam aquele que os oprimiu por 35 anos? Então ficamos assim, para citar o filho, ainda não mencionado, basta lembrar da crise que culminou com o afastamento do ministro Bebianno. Pode até ser que o caminho deveria ser mesmo a demissão, mas qual a razão de um filho, que não possui representação no governo, tornar-se fator determinante numa ação que deveria ser exclusiva do presidente? Aquilo ali não é assunto de família, é assunto de um poder institucional! A esses fatos, cuja maioria poderia ter sido evitada apenas executando a performance da “boca fechada”, assistimos alguns outros ministros escorregando na empáfia de seus cargos, como o chanceler que consegue enxergar o…

A Ressurreição pelas urnas

O livro “A ressurreição do General Sanchez”, publicado pela Editora Paz e Terra, em 1981, reeditado em 1997 pela editora Geração, conta a história de um ditador latino-americano que, percebendo o esgotamento de sua ditadura, decide terminar seu regime e escolher um substituto. Usando as técnicas da engenharia genética, manda fabricar um clone. O herdeiro seria idêntico ao pai, mas enquanto crescia, foi mudando de personalidade e de ideologia. Descobriu-se depois que a CIA havia produzido outro clone de direita, neoliberal; o Vaticano tinha produzido um democrata cristão, carola. Os clones foram sendo substituídos clandestinamente pelos serviços de espionagem dos países. O ditador aceitou pacientemente essa variação, até descobrir que os soviéticos também tinham o seu clone. Comunista ele não aceitou. O General mandou matar o último clone, o comunista, e engravidou três mulheres para escolher como seu herdeiro o primeiro filho que nascesse. Para surpresa de todos, cada mulher deu à luz cinco meninos, todos com cara e mãos de demônio. O ditador então legalizou os partidos e autorizou uma eleição livre, universal, desde que disputada entre os quinze meninos, seus filhos demônios. Não esperava o caos provocado por uma eleição com tantos candidatos, todos com alta taxa de rejeição pelos eleitores que não queriam escolher entre diabos, ainda que filiados a partidos diferentes. Ao sentir os limites de seu poder para controlar e organizar sua sucessão, o General mandou dizer ao povo que tinha decidido morrer, para ressuscitar quando o país precisasse dele outra vez. E desapareceu. Em um estilo de realismo fantástico, o livro descreve o período democrático como um grande carnaval, em que a população brinca nas ruas, os constituintes dentro do parlamento, enquanto a desordem se espalha, até que o General ressuscita, durante a tristeza e a ressaca da quarta-feira de cinzas histórica. Ainda é…

Não vai ter Fascismo

Entendo que a esquerda brasileira talvez esteja ansiosa pelo fascismo, para poder usar a tirada intelectual “tempos sombrios”. Mas não vai rolar. A eleição de Jair Bolsonaro está a um oceano de distância do nazi-fascismo – felizmente. E esse discurso da esquerda é mais um que vai virar pó em breve. Eu explico. Há algumas circunstâncias parecidas entre o Brasil de hoje e a Itália pré-fascista e a Alemanha pré-nazista. Havia uma grave crise econômica e aquele desejo ufanista de ver o seu país em melhor situação. Havia inimigos internos e externos a serem combatidos. Em todos os casos, a maioria da população se uniu em torno de um “plano C” – ou seja, os planos padrões com caminhos mais previsíveis e conhecidos foram descartados, e surgiu um terceiro caminho, bastante novo, imprevisível, e com a força de uma avalanche, impulsionados por sentimentos nacionalistas. Eu comparei os cenários acima e falei sobre fascismo e nazismo com a minha mãe, foi interessante a reação dela: “poxa então temos que temer que isso aconteça no Brasil”. Vejam como é fácil assustar alguém com esse assunto... As pessoas não param para estudar a história e analisar a situação de forma fria, e aí se tornam presas fáceis de qualquer discurso. Na minha opinião, há dois fundamentos básicos sem os quais o nazi-fascismo brasileiro não tem condições de existir. Vamos a eles. O primeiro aspecto diz respeito à essência dos movimentos nazi-fascistas. São movimentos totalmente auto-afirmativos, de expressão e agressividades postas na mesa, aplicadas no dia a dia. É impossível que esses movimentos ocorram de forma sorrateira, sem conhecimento da sociedade, pois seu acontecimento depende de auto-afirmação. Por exemplo: um fascista jamais esconderia que é fascista. Pelo contrário, ele precisa de símbolos a mostra, de ações para exemplificar. Veja, se você passar e chamar…

Facilitar convívio com a família é a melhor política contra a violência

Por Marcelo Biar* O Brasil avança na política errada do encarceramento em massa, andando de mãos dadas com a negação de direitos. Já somos a terceira nação com maior número de pessoas privadas de liberdade e, só no Rio de Janeiro, já temos mais de 60 mil presos. Cada um destes toca um núcleo familiar que tem um vazio na mesa do jantar. Agrava este quadro o fato dos presos não serem de origem social aleatória. Quase todos são de camada popular. Além disto, no Rio,  temos presídios em apenas oito dos 92 municípios do estado. Receber a visita de familiares é missão quase impossível para boa parte dos encarcerados, o que representa um problema mais grave do que muitos podem prever. A visita, além de ser um direito do apenado garantido pela constituição, se constitui como um fator de ressocialização. Quem conhece o universo penitenciário sabe que o dia de visita é sempre o mais tranquilo nas unidades prisionais. É a presença constante dos entes amados que pode “disputar” o futuro do preso. Muitas vezes sua reincidência ou não no universo criminoso é definida pelo papel que filhas, filhos, esposas, maridos, mães e pais, exercem sobre ele. Não podemos ignorar a família do preso que, a despeito de não ter cometido delito algum também sofre e necessita do contato com o ente preso. A pena é de mão dupla e o equilíbrio da família também passa por este contato. É importante, apesar do crime cometido, que um filho conviva com seu pai, mesmo cumprindo esta etapa. O sofrimento do isolamento é uma extensão descabida, de pena. É a punição que se estende aos que não cometeram crimes. Baseado nisso organizei o Projeto de Lei que prevê gratuidade de passagem para visitantes de presos, em seus dias de visita. Para…