sábado, 25 de maio de 2019
Educação

O presente do futuro

Em uma viagem que fiz à Georgia, tive a oportunidade de ser recebido em audiência pelo ministro da Educação daquele país em seu gabinete. Como é praxe nesse tipo de encontro, no meio da conversa, entreguei-lhe um presente que havia levado do Brasil. Era uma simpática escultura feita por índios de uma tribo do Amazonas. Achei que estaria agradando, ao levar um exemplar tão representativo, embora óbvio, da nossa cultura. O ministro recebeu o objeto, sorriu, agradeceu e me ofereceu o seu presente que, para minha surpresa, não era exatamente produto da arte e da cultura do país. Ganhei um laptop que, informou o ministro, era igual ao que todos os alunos da escola na Georgia recebiam. Confesso que fiquei desconcertado ao perceber que, enquanto eu lhe dava de presente um objeto primitivo, a despeito de sua beleza estética, a Georgia me mostrava seu avanço tecnológico na educação de suas crianças. Ao longo dos últimos 30 anos, como reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, ministro da Educação, senador e professor, tenho procurado manter contato bastante próximo com o corpo diplomático em Brasília. A exemplo da circunstância vivenciada na Geórgia, sempre percebi nesses encontros um sentimento de perplexidade dos diplomatas estrangeiros, mesmo aqueles de países menos desenvolvidos que o Brasil, quanto à tragédia da nossa educação. Em todo esse tempo, além da curiosidade geral que sinto pela cultura, história e economia de lugares que tenho visitado, acima da minha gratidão pelos quatro países onde vivi - França, Equador, Honduras e Estados Unidos - sempre me fascinou ver o que esses povos estão fazendo pela educação. Tenho um estudo em andamento sobre “o que eles fizeram” e comparo com “o que o Brasil não fez” em matéria de educação. Este é um assunto sobre o qual deveríamos nos aprofundar - o que ainda…

BNCC: Qual o lugar do aluno na definição de um currículo?

Por Caio Lo Bianco* Foi homologada recentemente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), importante documento que servirá como norteador dos currículos de escolas públicas e privadas do País. Os profissionais de educação sabem que a palavra “currículo” é uma das mais utilizadas por pesquisadores da área e também no cotidiano da escola. Mas o que, de fato, seria um currículo? O conceito é complexo e, por isso, dificulta a formulação de uma definição única e simples. O currículo é reflexo de diversos fatores sociais, políticos e econômicos, constituindo um posicionamento ético diante de questões fundamentais que podem ser observadas não só no campo do pensamento, mas, sobretudo, na ação. Entre tais questões estão a imagem da criança, o papel do professor, o envolvimento da família no processo educativo e, principalmente, a concepção de educação. Com relação à primeira delas – a imagem da criança –, alguns questionamentos surgem. Acredita-se na criança como um pesquisador, que busca, de forma ativa, conhecimento? Ou apenas como um receptor de saberes já estabelecidos e organizados pelos adultos? Suas ideias, teorias e hipóteses são importantes e válidas para serem ouvidas pelos adultos? São as respostas a essas perguntas e o posicionamento perante elas que delimitarão o espaço da criança como sujeito nas decisões sociais e no ambiente escolar. Enquanto aqui no Brasil questões como essa ficam distante da reforma curricular, em outras regiões mundo afora elas avançam. Em Reggio Emilia, cidade no norte da Itália que ganhou destaque internacional após investir fortemente em educação infantil, o currículo afasta-se de uma concepção cristalizada da criança marginalizada, ou seja, aquela que apenas recebe ensinamentos e é cuidada. Ela é vista como um sujeito único, completo, singular, que possui direitos e, assim, também é capaz de dar, oferecer e cuidar, como destaca a pesquisadora italiana Carla Rinaldi. Em…

Falta a Liga

Em uma entrevista em 26/10/2012, nosso campeão mundial Raí foi perguntado sobre o que mais o tinha impressionado durante seu tempo na França, jogando no Paris Saint Germain. Ele respondeu: “minha filha ia na mesma escola que a filha da minha empregada” – uma escola com qualidade igual às melhores do mundo. Graças a isso, a França tem liga há mais de cem anos. Seu povo, apesar de desigualdades e discordâncias, tem coesão social no presente e rumo para o progresso no futuro. Até 1861, a Itália não existia como nação. O território de hoje era povoado por grupos sociais organizados em pequenos principados, cada qual com seu idioma, seus costumes, suas características específicas. A unificação foi o resultado da vontade e competência política de alguns estadistas, mas a Liga que fabricou a Itália foi a escola com qualidade e características iguais para todos, unificando o idioma e criando os sentimentos pátrios. O mesmo vale para todos os países que têm coesão e rumo: criaram, sistematizaram e mantiveram escola de qualidade e igual para todos ao longo de décadas. Nenhuma criança deixada para trás, todos os cérebros aproveitados, desenvolvidos e bem formados, independente da sua renda e da cidade onde mora. Esta Liga é necessária e possível de se fazer no Brasil. Nos últimos anos, dei minha contribuição ao aprovar algumas leis que serviram como ingredientes para essa Liga: a Lei 11.738/2008, que estabeleceu um Piso Nacional para os salários de todos os professores do Brasil; a Lei 11.700/2008, que obriga cada governo municipal a assegurar vaga para suas crianças desde os quatros anos; a Lei 12.061/2009, que obriga todo governo estadual a oferecer vaga para todo jovem durante o ensino médio. Para dar Liga, o Brasil ainda precisa aprovar a PEC 32/2013, de minha autoria, há 5 anos em…

O professor caminhoneiro

Há décadas o Brasil desvia recursos da educação, do saneamento, da saúde, da moradia e de outros setores sociais para fazer as estradas, pontes, viadutos, avenidas que a indústria automobilística exige. Esses sacrifícios foram feitos sem reclamação, porque a inflação permitia a ilusão de recursos públicos para todas as prioridades: as sociais e as automobilísticas. O resultado é sermos grandes produtores de carros e um dos últimos países em educação, saúde, distribuição de renda, com uma cultura que prioriza mais o tanque de combustível do que a qualidade da alimentação dos filhos. Graças aos caminhoneiros, estamos descobrindo que, para reduzir o preço do diesel, será necessário tirar dinheiro de outros gastos. Os caminhoneiros estão mostrando que um Real gasto em uma despesa não pode ser gasto simultaneamente em outra. Antes isso era possível graças ao estelionato da inflação. Descobrimos a aritmética; falta descobrir a política para escolher de onde retirar os recursos necessários, sem comprometer a educação e outros gastos sociais. A greve nos ensinou que o Brasil esgotou o modelo econômico e social pelo qual o progresso está no aumento do PIB, mesmo ao custo da depredação ecológica, concentração de renda, atraso educacional, científico e tecnológico. Mostrou também que foi um erro a opção pelo transporte rodoviário, no lugar do ferroviário, hidroviário ou por cabotagem; como foi erro priorizar o transporte urbano em carros privados, no lugar do coletivo. A paralisação foi suficiente para o governo decidir subsidiar o óleo diesel, sacrificando gastos em outros setores. Pena que os militantes continuem prisioneiros da época da reivindicação em vez de lutar para que o subsídio seja financiado sem sacrifício de gastos na educação e sem cair na ilusão inflacionária. Para tanto, bastaria lutar por reduzir apenas 0,6% dos gastos previstos para o Senado e a Câmara de Deputados.

Reflexão sobre o papel do educador

Por Elisabete da Cruz*   Ainda estamos engatinhando para o verdadeiro sentido da palavra educação Aprendemos a falar e aprendemos a silenciar. Aprendemos a multiplicar, mas também a dividir Aprendemos a sorrir e a chorar A se desculpar e a voltar a errar A se orgulhar e a ter orgulho! Aprendemos a descobrir todos os dias um modo de viver melhor. As datas são marcos importantes para refletirmos, para aprendermos a silenciar nossas mentes sobre o verdadeiro sentido da vida, do nosso papel na sociedade, de alguma injustiça ou algo que possa levar a conscientização para o maior número de pessoas! E o aprender está em tudo que faz sentido! Ele nos conecta, nos une, nos faz crescer! A educação é isso, é esta certeza inconstante e ao mesmo tempo pulsante. Ainda estamos aprisionados em paredes, lousas, giz e papel! Ainda temos pessoas infelizes ensinando o outro a receita da felicidade.  Ainda estamos engatinhando para o verdadeiro sentido da palavra educação! Que este dia seja uma pausa para enxergarmos nosso papel de educador! Educador pai, educador avô, educador porteiro, educador cantineiro... Afinal, educação se faz pelo exemplo, pelo processo de melhoria contínua, pelo amor! Parabéns para nós!   *Elisabete da Cruz é educadora, autora, empresária e produtora executiva na área de projetos culturais, educativos e de entretenimento, envolvendo públicos de todas as idades.

O outro lado dos problemas

Muitos brasileiros do centro sul têm aprendido a conviver mais recentemente com um problema que os nordestinos conhecem há séculos – a escassez de água. Em algumas regiões, quando os reservatórios enchem vem a falsa sensação de abundância. Mas as mudanças climáticas e aumento da população vão trazer de volta a questão. Esquecem que a oferta de água depende também da educação do cidadão que deve adotar padrão austero de consumo. O problema da água tem duas pontas: hídrica e educacional. Todos os demais problemas e desafios do Brasil passam por duas pontas. O emprego só será criado se a economia fizer investimentos, mas bom emprego exige educação do candidato. O aumento da riqueza nacional depende do crescimento econômico, mas sem educação a produtividade não sobe e a pobreza social continua. E se a educação não for de qualidade para todos, a concentração da renda perdura. O desemprego, a pobreza e a concentração de renda são problemas com duas pontas. A educação é uma delas. A violência precisa ser enfrentada com polícia, justiça e cadeia. Mas só com educação para todos será possível oferecer a mesma oportunidade aos brasileiros. A corrupção será combatida com o fim do foro privilegiado, mas o mundo mostra que a corrupção cai substancialmente nos países onde eleitores têm boa educação. Todo problema tem duas pontas e uma delas é a educação. Nisto está a dificuldade: o problema da educação também tem duas pontas. A ponta dos educadores para fazer a escola ideal, e a ponta educacionista para construir todas as escolas com qualidade igual. E para cuidarmos do problema da educação, eleitores e eleitos precisam antes ser educados. Este paradoxo – para educar o Brasil é preciso que o Brasil já esteja educado - só será resolvido quando for eleito um presidente-estadista, educador do povo,…