quinta-feira, 21 de novembro de 2019
Educação

A lição do Tião Salgado

Em setembro de 2000 fui convidado para um seminário em Nova York, patrocinado pelo Global World Forum. Na sala onde faria minha participação, havia jovens até sentados no chão. Antes que eu começasse a falar, um deles perguntou o que eu achava de internacionalizar a Amazônia: "Não quero sua resposta como brasileiro mas como humanista". Falei que poderia considerar a hipótese se antes fossem internacionalizados todos os poços de petróleo, armas nucleares, museus, cidades históricas, tudo de importante para a humanidade. Declarei que quando tudo isso for internacional, podemos discutir a internacionalização da Amazônia. Até lá ela é só nossa. Essa fala teve grande repercussão, foi traduzida em muitos idiomas; inclusive incorporada em coletânea de grandes discursos brasileiros. Sempre achei que fiz uma boa conclusão, até que o fotógrafo Sebastião Salgado, amigo há 50 anos, disse que não gostava da conclusão, porque se não formos capazes de cuidar dos patrimônios da humanidade que estão no nosso território, não merecemos tê-los só para nós. Lembrei do Tião Salgado, ao ver o ministro general Heleno dando a impressão de que temos o direito de queimar a Amazônia, porque ela é nossa. A Amazônia é nossa, mas é um patrimônio mundial de toda a humanidade. Sua destruição irresponsável, em nome do nacionalismo, é um holocausto verde ao sacrificar a humanidade inteira. Nenhum nacionalismo tem o direito de se opor ao humanismo, porque é imoral e estúpido, indecente e insensato. Por isso devemos usar a Amazônia com responsabilidade planetária. A Terra é um condomínio de países. No mundo atual, na Era Antropocena do poder humano descomunal, nenhum país está isolado. O presidente Bolsonaro comete grave erro diplomático e pecado humanista ao apontar para o presidente francês e para a chanceler alemã e lembrar que desde os romanos a Europa queima florestas e que por…

O gênio divertido

Em janeiro de 2004 eu tinha uma viagem à Índia e decidi visitar Sri Lanka para ver a tragédia do tsunami, ocorrido no dia 24 do mês anterior. Aquele pequeno país havia sido o que mais sofrera proporcionalmente à catástrofe. Graças ao nosso embaixador na Índia, José Vicente Pimentel, que acumulava a representação do Brasil em Sri Lanka, tive apoio da consulesa honorária do Brasil, Jenifer Maragoda. Ela conseguiu colocar um helicóptero à minha disposição, com o qual sobrevoei as florestas, atravessei a ilha de uma costa a outra, desci nas praias que escolhi para conversar com os sobreviventes e ver os estragos provocados pelas ondas gigantes. Mais importante foi a Sra. Maragoda ter conseguido uma conversa minha com o escritor Arthur C. Clarke. Eu havia me formado lendo seus geniais livros de ficção científica. Devo a ele parte da imaginação que adquiri ao longo da vida. Conhecê-lo seria estar com um ídolo. Ela conseguiu. Fomos à casa dele, em um bairro de Colombo, de dois andares com as paredes repletas de posters de naves espaciais e astronautas. Fui até o escritório aonde Arthur Clarke chegou logo depois, em uma cadeira de rodas, com um enorme e travesso sorriso. Sentei em frente a ele, do outro lado do bureau. Antes mesmo de ficar acomodado, olhou fixo para mim e com um sorriso divertido disse: “Então, senhor Senador, você é brasileiro! Como está o clima em Buenos Aires?”. Senti meu herói se desfazendo, mas eu não podia desmenti-lo, ainda menos dar uma lição de geografia a um dos gênios do século. Para mim, um dos maiores. Seria impossível apresentar uma proposta de reforma da Constituição mudando a capital de Brasília para Buenos Aires, preferi responder dizendo, muito seriamente: “Faz tempo que eu não vou lá”. Ele deu uma gargalhada, olhou ao…

O presente do futuro

Em uma viagem que fiz à Georgia, tive a oportunidade de ser recebido em audiência pelo ministro da Educação daquele país em seu gabinete. Como é praxe nesse tipo de encontro, no meio da conversa, entreguei-lhe um presente que havia levado do Brasil. Era uma simpática escultura feita por índios de uma tribo do Amazonas. Achei que estaria agradando, ao levar um exemplar tão representativo, embora óbvio, da nossa cultura. O ministro recebeu o objeto, sorriu, agradeceu e me ofereceu o seu presente que, para minha surpresa, não era exatamente produto da arte e da cultura do país. Ganhei um laptop que, informou o ministro, era igual ao que todos os alunos da escola na Georgia recebiam. Confesso que fiquei desconcertado ao perceber que, enquanto eu lhe dava de presente um objeto primitivo, a despeito de sua beleza estética, a Georgia me mostrava seu avanço tecnológico na educação de suas crianças. Ao longo dos últimos 30 anos, como reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, ministro da Educação, senador e professor, tenho procurado manter contato bastante próximo com o corpo diplomático em Brasília. A exemplo da circunstância vivenciada na Geórgia, sempre percebi nesses encontros um sentimento de perplexidade dos diplomatas estrangeiros, mesmo aqueles de países menos desenvolvidos que o Brasil, quanto à tragédia da nossa educação. Em todo esse tempo, além da curiosidade geral que sinto pela cultura, história e economia de lugares que tenho visitado, acima da minha gratidão pelos quatro países onde vivi - França, Equador, Honduras e Estados Unidos - sempre me fascinou ver o que esses povos estão fazendo pela educação. Tenho um estudo em andamento sobre “o que eles fizeram” e comparo com “o que o Brasil não fez” em matéria de educação. Este é um assunto sobre o qual deveríamos nos aprofundar - o que ainda…

BNCC: Qual o lugar do aluno na definição de um currículo?

Por Caio Lo Bianco* Foi homologada recentemente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), importante documento que servirá como norteador dos currículos de escolas públicas e privadas do País. Os profissionais de educação sabem que a palavra “currículo” é uma das mais utilizadas por pesquisadores da área e também no cotidiano da escola. Mas o que, de fato, seria um currículo? O conceito é complexo e, por isso, dificulta a formulação de uma definição única e simples. O currículo é reflexo de diversos fatores sociais, políticos e econômicos, constituindo um posicionamento ético diante de questões fundamentais que podem ser observadas não só no campo do pensamento, mas, sobretudo, na ação. Entre tais questões estão a imagem da criança, o papel do professor, o envolvimento da família no processo educativo e, principalmente, a concepção de educação. Com relação à primeira delas – a imagem da criança –, alguns questionamentos surgem. Acredita-se na criança como um pesquisador, que busca, de forma ativa, conhecimento? Ou apenas como um receptor de saberes já estabelecidos e organizados pelos adultos? Suas ideias, teorias e hipóteses são importantes e válidas para serem ouvidas pelos adultos? São as respostas a essas perguntas e o posicionamento perante elas que delimitarão o espaço da criança como sujeito nas decisões sociais e no ambiente escolar. Enquanto aqui no Brasil questões como essa ficam distante da reforma curricular, em outras regiões mundo afora elas avançam. Em Reggio Emilia, cidade no norte da Itália que ganhou destaque internacional após investir fortemente em educação infantil, o currículo afasta-se de uma concepção cristalizada da criança marginalizada, ou seja, aquela que apenas recebe ensinamentos e é cuidada. Ela é vista como um sujeito único, completo, singular, que possui direitos e, assim, também é capaz de dar, oferecer e cuidar, como destaca a pesquisadora italiana Carla Rinaldi. Em…

Falta a Liga

Em uma entrevista em 26/10/2012, nosso campeão mundial Raí foi perguntado sobre o que mais o tinha impressionado durante seu tempo na França, jogando no Paris Saint Germain. Ele respondeu: “minha filha ia na mesma escola que a filha da minha empregada” – uma escola com qualidade igual às melhores do mundo. Graças a isso, a França tem liga há mais de cem anos. Seu povo, apesar de desigualdades e discordâncias, tem coesão social no presente e rumo para o progresso no futuro. Até 1861, a Itália não existia como nação. O território de hoje era povoado por grupos sociais organizados em pequenos principados, cada qual com seu idioma, seus costumes, suas características específicas. A unificação foi o resultado da vontade e competência política de alguns estadistas, mas a Liga que fabricou a Itália foi a escola com qualidade e características iguais para todos, unificando o idioma e criando os sentimentos pátrios. O mesmo vale para todos os países que têm coesão e rumo: criaram, sistematizaram e mantiveram escola de qualidade e igual para todos ao longo de décadas. Nenhuma criança deixada para trás, todos os cérebros aproveitados, desenvolvidos e bem formados, independente da sua renda e da cidade onde mora. Esta Liga é necessária e possível de se fazer no Brasil. Nos últimos anos, dei minha contribuição ao aprovar algumas leis que serviram como ingredientes para essa Liga: a Lei 11.738/2008, que estabeleceu um Piso Nacional para os salários de todos os professores do Brasil; a Lei 11.700/2008, que obriga cada governo municipal a assegurar vaga para suas crianças desde os quatros anos; a Lei 12.061/2009, que obriga todo governo estadual a oferecer vaga para todo jovem durante o ensino médio. Para dar Liga, o Brasil ainda precisa aprovar a PEC 32/2013, de minha autoria, há 5 anos em…

O professor caminhoneiro

Há décadas o Brasil desvia recursos da educação, do saneamento, da saúde, da moradia e de outros setores sociais para fazer as estradas, pontes, viadutos, avenidas que a indústria automobilística exige. Esses sacrifícios foram feitos sem reclamação, porque a inflação permitia a ilusão de recursos públicos para todas as prioridades: as sociais e as automobilísticas. O resultado é sermos grandes produtores de carros e um dos últimos países em educação, saúde, distribuição de renda, com uma cultura que prioriza mais o tanque de combustível do que a qualidade da alimentação dos filhos. Graças aos caminhoneiros, estamos descobrindo que, para reduzir o preço do diesel, será necessário tirar dinheiro de outros gastos. Os caminhoneiros estão mostrando que um Real gasto em uma despesa não pode ser gasto simultaneamente em outra. Antes isso era possível graças ao estelionato da inflação. Descobrimos a aritmética; falta descobrir a política para escolher de onde retirar os recursos necessários, sem comprometer a educação e outros gastos sociais. A greve nos ensinou que o Brasil esgotou o modelo econômico e social pelo qual o progresso está no aumento do PIB, mesmo ao custo da depredação ecológica, concentração de renda, atraso educacional, científico e tecnológico. Mostrou também que foi um erro a opção pelo transporte rodoviário, no lugar do ferroviário, hidroviário ou por cabotagem; como foi erro priorizar o transporte urbano em carros privados, no lugar do coletivo. A paralisação foi suficiente para o governo decidir subsidiar o óleo diesel, sacrificando gastos em outros setores. Pena que os militantes continuem prisioneiros da época da reivindicação em vez de lutar para que o subsídio seja financiado sem sacrifício de gastos na educação e sem cair na ilusão inflacionária. Para tanto, bastaria lutar por reduzir apenas 0,6% dos gastos previstos para o Senado e a Câmara de Deputados.