terça-feira, 11 de agosto de 2020

Duzentas e sessenta e seis luas

“Todos os seres vêm preparados para cumprir a sua tarefa, movidos pelo prazer profundo e pelo amor incondicional.” Ernst Götsch Tinha 12 anos. Não era tabu mas também não era outra coisa. Eu iria sangrar. Todos os meses durante muitos anos. Ia doer e ia doer todos os meses por muitos e muitos anos. Eu ia ter a cara com pintas, o corpo com pelos, o sovaco com cheiros, a gaveta com absorventes coloridos. Eu ia ter dias que não ia saber o que fazer, que o absorvente não estava e o banheiro não ia chegar a tempo. Eu ia ter vergonha, muita vergonha. Por muitos meses, muitos anos. E nunca deixaria de doer, nunca deixaria de esconder os absorventes, não iria falar sobre isso publicamente, não iria me orgulhar disso. Um dia talvez eu não sangrasse e não doesse, e talvez isso durasse 9 meses e mais um pouco. Aí seriam outras dores e outras batalhas. Mas até lá, ia doer. No inicio não sabia como vinha nem quando vinha, então ter sempre absorventes e parafernálias de lenços umedecidos comigo seria algo interessante a considerar. Fui levando a vida. 12 anos e já era mulher, e por ser mulher deveria me comportar como tal – dizia o mundo. Cruza a perna, não fala alto, sê a melhor aluna, se comporte em público. Não fale nunca, jamais, sobre o sangue que escorre pelas coxas e te banha o ventre por dentro todos os meses. Jamais faça isso. Sangue não se fala, se esconde. E isso é para sempre, todos os meses, até quando o mundo te chamar de velha porque não sangrarás mais. Teve o dia na colônia de férias, 1996. Mergulhei na piscina, primeiros dias, primeiros amigos, gargalhadas depois do banho de piscina, deitada naquela canga branca – essa…

Febre amarela, malária, dengue? Inhame inhame!

Por Sônia Hirsch*   A saúde é simples, as doenças é que são complicadas. Por séculos e séculos as populações tropicais sobreviveram comendo apenas o que dava no local onde tinham suas aldeias. Nas regiões úmidas, ladeando as grotas onde grassavam mosquitos, sempre houve fartura de inhame – na Ásia, na África, na América do Sul. Fácil de colher, fácil de preparar e ainda por cima gostoso, o inhame se tornou um dos principais alimentos básicos desses povos. O que não se sabia é que, durante séculos e séculos, o pequeno e cabeludo inhame estava protegendo as gentes da malária, da dengue, da febre amarela. E eis que chegou a mandioca, aipim, também deliciosa e fácil. Que além do mais dava boa farinha, própria para guardar ou fazer pão, goma para a tapioca de cada dia e ainda bebidas alcoólicas como cauim, alué e tiquira, que ajudavam a esquecer e sonhar. O inhame ficou pra lá. As gentes começaram a morrer de malária, de dengue, de febre amarela. Isso foi muito bem observado na África, onde as roças de inhame foram substituídas por seringais. Comer inhame continua funcionando para evitar e tratar as doenças transmitidas por mosquitos. Há algo no inhame, talvez o altíssimo teor de zinco, que neutraliza no sangue o agente infeccioso transmitido pelo mosquito. Diz o povo que é seu visgo que tem poderes. Não se sabe ao certo. A pesquisa científica ainda não se interessou. Até pouco tempo atrás circulava nas farmácias um tônico centenário à base de inhame e salsaparrilha, o Elixir de Inhame Goulart, usado até como coadjuvante no tratamento de sífilis. A Anvisa não renovou a licença por falta de comprovação da eficácia. Nada corre mais perigo hoje em dia do que uma coisa barata com propriedades medicinais. (Não confundir com um tal…

Narrativas falsas

O mundo descobriu recentemente o poder e o risco das “fake news”. Mas no Brasil há décadas somos vítimas de narrativas falsas que corrompem nossa maneira de pensar. Para defender seus gastos, o governo corrompe a aritmética e cria a falsa narrativa da moeda com a inflação. O resultado foi o crescimento da riqueza nas mãos dos poucos ricos e a persistência da pobreza na vida de uma multidão. O atual presidente foi escolhido vice duas vezes pela presidente impedida. O impeachment seguiu prescrições constitucionais e as instituições continuam funcionando. Mas ainda prevalece a falsa narrativa de golpe. Da mesma forma, sustenta-se a falsa narrativa de que a Lava Jato vai salvar o Brasil, esquecendo-se que juiz pode mandar prender político corrupto, mas não elege político honesto. É também falsa a narrativa de que a cassação do direito político de um corrupto a candidatar-se vai educar o eleitor, quando poderá até acomodá-lo. Todos que não forem condenados serão vistos como igualmente bons. Depois do “rouba, mas faz”, cairemos no “se não rouba, já é bom”, não importando suas prioridades e competência. O Brasil vai continuar igual se não nos educarmos como eleitores. Quando se discutia a Lei da Ficha Limpa, defendi que o Ficha Suja deveria poder ir à campanha como os cigarros vão à venda, com o aviso de que “este candidato foi condenado por corrupção e faz mal à saúde nacional”. A Lei da Ficha Limpa deu à Justiça o poder de condenar e cassar. Vamos ter de conviver com ela esperando educar o eleitor por outros meios, mas alertando que acreditar plenamente em narrativas falsas, não educa.

Obesidade X Estresse Crônico: uma proposta de reflexão!

Atualmente, há um crescente número da população mundial, especialmente de crianças e adolescentes, com sobrepeso ou obesos. Com isso, maior risco de desenvolver doenças associadas a obesidade. Mas o que causa a obesidade? Que fatores levam as pessoas a comer muito mais calorias do que precisam? A fazer escolhas alimentares de produtos tão inadequados a sua saúde, ainda que conscientes disso? A tensão que vivemos no dia a dia com os problemas da atualidade, tais como desemprego, excesso de trabalho, violência, corrupção, aborrecimentos nos levam a um constante estado de alerta. Com isso, estamos nos deparando com pessoas, inclusive crianças e adolescentes, sofrendo de sérios desequilíbrios no funcionamento do nosso corpo. Especialistas têm alertado para o aumento exagerado nos níveis de cortisol – um hormônio produzido pela glândula adrenal para nos tirar de situações de risco. Para ilustrar melhor como este hormônio deveria funcionar, vamos voltar ao tempo das cavernas. Quando o homem se deparava com um leão, era liberado cortisol para que ele tivesse uma preparação do corpo para fugir daquela situação. Podemos dizer que este é um hormônio relacionado a sobrevivência. O problema é que, nos dias de hoje, temos um leão a cada hora. É tanto estresse que o que acontece é um desequilíbrio do cortisol e de todos os demais hormônios envolvidos no metabolismo da energia. Os níveis deste hormônio alterados, sendo altos ou baixos, desencadeiam uma série de consequências como o aumento da insulina e da glicose no sangue, um acúmulo de gordura na região abdominal, obesidade. Os sintomas deste desequilíbrio vão além: as pessoas já acordam cansadas, vivem muito ansiosas, não conseguem ter boa noite de sono, tem baixa concentração e memória, compulsão alimentar, tendem a consumir mais cafeína e álcool, como forma de relaxar. A essa doença chamamos de ESTRESSE CRÔNICO, também conhecida…

Os novos tempos possíveis sem Lula

As opções de Lula para escapar da prisão estão cada vez menores. Já condenado em segunda instância, pressuposto que pode levar qualquer um à prisão, e diante das portas fechadas para a tradicional saída através de recursos aos tribunais superiores, aqueles que chamou de acovardados em telefonema gravado, torna-se quase inevitável a sua prisão e, segundo as disposições da Lei da Ficha Limpa, já está inelegível. Assim, o cenário que se descortina para o futuro é o de uma eleição sem Lula. Para onde caminharão os 34/37% de eleitores que optaram por ele em recente pesquisa? Esta eleição será, sem dúvida, uma das mais incertas, porém de uma importância vital para o futuro do Brasil. Nunca o país precisou tanto de reformas, com destaque para a política, tributária e econômica. Há questões fundamentais a serem tratadas nas áreas de segurança, corrupção sistêmica, mordomias e benesses generalizadas nos três poderes, tamanho do estado, desenvolvimento econômico, desemprego, crise na saúde pública e na educação, obras, vitais ou não, paralisadas e gerando custos sem retorno, violência urbana saindo do controle, enfim, um manancial de problemas de difícil solução, muitos gerados por governos desastrados, que perduram e se perpetuam, aparentemente sem a percepção de nossos políticos, que parecem só se preocupar com a eleição próxima, o foro privilegiado e a Lava-jato! É bom que se ressalte que os problemas esparramam-se pelos Estados e Municípios e, em alguns casos, a crise está instalada e gerando consequências dramáticas! Precisamos então do novo! Um novo presidente e Governadores sem compromisso com a velha política. Uma nova política, é claro! Planejamento! Congresso renovado, forte e compromissado com o país! Reformas que o país necessita! Precisamos de um novo tempo sem Lula, e como seria bom se pudéssemos renovar também toda essa classe política e partidos, ambos desgastados com…

Bom programa para a folia

O carnaval está batendo na porta e sugiro nessa coluna algumas séries e filmes bem bacanas para fugir da folia ou para curtir entre um bloco e outro. [caption id="attachment_3583" align="alignright" width="300"] Legion[/caption] Estreias da Netflix: em fevereiro, o catálogo do canal de streaming é atualizado com boas estreias. Entre elas, a “Legion” (no catálogo a partir do dia 14). A série estreou ano passado no FX. Para quem não viu, vale conferir a saga do mutante com múltiplas personalidades. O personagem é inspirado no universo dos X-Men e nos quadrinhos ele é filho do professor Charles Xavier. O seriado vai por um caminho não convencional, como a Fox tem feito com alguns produtos recentes do universo mutante. Tem um clima de psicodelia muito apropriado para a história da personagem. Entre os filmes, destaco “Guardiões da Galáxia”, considerado um grande acerto do universo Marvel no cinema (preste atenção na trilha sonora, uma beleza) e o belo e comovente “A garota dinamarquesa” (esse estreia no final do mês). [caption id="attachment_3584" align="alignleft" width="300"] Justiça Jovem[/caption] Justiça Jovem: estreia recente também na Netflix, essa série de animação dos personagens adolescentes da DC Comics é um grande acerto. O sucesso foi tanto que um personagem criado exclusivamente para o desenho, o Aqualad – na encarnação filho do Arraia Negra, inimigo do Aquaman – foi transportado para as HQs. O grupo formado por sidekicks dos super-heróis clássicos como Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha ganhou um desenho animado com roteiro consistente, que explorou bem a personalidade de cada membro do grupo. Inicialmente com duas temporadas, ambas no canal de streaming agora, o pedido insistente dos fãs rendeu a criação de uma terceira temporada, que estreia no segundo semestre desse ano. [caption id="attachment_3585" align="alignright" width="300"] Nise - O coração da loucura[/caption] Poder feminino: dois belos filmes, também…