terça-feira, 11 de agosto de 2020

Movimenta, Pernambuco!

Por Rita Fernandes Uma nova força sonora ecoa em Pernambuco. São sons que vêm da terra, das influências do Agreste, da Zona da Mata, das cantorias do dia a dia, carregados ao mesmo tempo de contemporaneidades temáticas e harmônicas. Se na década de 1990 o movimento da geração de Fred Zero Quatro e de Chico Science definiu uma nova cena musical com o manguebeat, hoje os jovens artistas pernambucanos desse caldeirão multicultural preferem falar em uma nova “movimentação”. São artistas de diferentes estilos, vindos de regiões como Caruaru, Arcoverde, Goiana, Carpina, Olinda e Recife, que se juntam em pequenos espaços musicais da cidade, como Casa do Cachorro Preto e Creperia, e que se articulam principalmente nas casas uns dos outros. Foi por essa rede que a tal “movimentação” acabou ganhando forma e força, especialmente na sala da casa de Juliano Holanda, que abriga a maior parte dos encontros musicais. [caption id="attachment_3426" align="alignleft" width="300"] A cantora Isadora Melo. Foto: Rodrigo Ramos[/caption] “Pernambuco está borbulhando de artistas novos, com um talento absurdo”, diz o produtor do Palco Sunset do Rock in Rio, Zé Ricardo, responsável por levar Almério, Spok e Banda de Pífano Zé do Estado na última edição do megaevento de música. Mas a lista é longa, com nomes como Isadora Melo, Thiago Martins, Isabela Moraes, Marcello Rangel, Vinicius Barros, Ylana Queiroga, Thulio Oliveira, Juvenil Silva, Junior Black, Igor de Carvalho, Flaira Ferro, Aninha Martins, Gabi da Pele Preta, Barro, Vertinho Moura. O resultado dessa interseção de micro regionalidades é uma vitalidade criativa marcada especialmente por uma safra de trabalhos que têm privilegiado a palavra, a poética e o verso. “É como parar para vestir as canções, dar atenção às letras”, diz Isadora Melo. “O que marca a diferença dessa nova geração é que está acontecendo uma troca intensa, onde um…

A cultura na tela do CineAmazônia

Quando retorno ao Norte, minha memória dispara. Há anos não voltava a Rondônia, por onde passei muitas vezes durante a infância e a adolescência, quando viajava com minha família do Acre a São Paulo, para visitar parentes, fazer compras ou tratamentos de saúde. Mas já não me lembrava de muita coisa de Porto Velho e por isso gostei tanto do convite para ser jurado do Cine Amazônia – Festival de Cinema Ambiental, entre os dias 17 e 21 de outubro passado, a convite dos produtores Fernanda Kopanakis e Jurandir Costa, que há 15 anos organizam o festival. Em contraste com a exuberância da floresta, desde a marcação das passagens (e consequente remarcação, por duas vezes, da Latam), o descaso com que a Amazônia é tratada mostrou que continua a prevalecer. A persistência que envolve um evento cultural como o CineAmazônia, no entanto, me levou a perceber que, mesmo em meio às muitas dificuldades de realização, o festival é como um barco vigoroso que mantém seu curso em meio às tormentas e secas que atravessam seu caminho. Em 2015, uma enchente histórica do rio Madeira alagou Porto Velho por mais de um mês, deixando um lastro de destruição, que contrasta com a secura que aumenta a cada ano. Ao constatar a efervescência do festival no Sesc Esplanada – que lota suas sessões principalmente com estudantes –, pensei em como o ato de produzir filmes, exibi-los, além de fomentar o debate sobre literatura, é uma das atividades mais promissoras para quem pensa o futuro de uma das regiões mais ricas do Brasil, mesmo que o presente e o passado digam não. Além da exibição de filmes e prêmios para as produções locais, a décima-quinta edição do festival promoveu o encontro de estudantes com os escritores Ronaldo Correia de Brito e José Inácio…

Lutero: ética, inteligência e coragem

Cada um de nós deveria, de vez em quando, identificar as pessoas que foram determinantes na nossa vida: pais, mestres, irmãos, namoradas, amigos, autores, artistas. Pessoas que mudaram o mundo ou mudaram a nossa própria maneira de ser e pensar. Raramente, quem mudou o rumo da história é determinante também no dia-a-dia da vida de cada um de nós. Mas alguns conseguem isso. Martinho Lutero é um exemplo desses raros seres humanos. Na religiosidade, não sou formado como luterano, nem mesmo como evangélico. Minha formação foi em colégio católico, mas sou observador do mundo e, como tal, desde muito jovem, admiro Martinho Lutero. Fui influenciado por ele, como praticamente todos no mundo ocidental, mesmo sem saber. Primeiro, pelo exemplo de sua ética ao recusar uma Igreja acumuladora de riquezas materiais, seja para a instituição, seja para o enriquecimento pessoal do sacerdote. Para Lutero, a religião é para promover a fé, a espiritualidade, não para o materialismo. A ética luterana era uma novidade radical na Europa Católica do século XVI, quando religião e dinheiro conviviam de mãos dadas. Segundo, por ele ter transformado sua ética em um pensamento, representado nas 95 teses que pregou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 1517. Séculos depois, um filósofo disse que a religião, quando submetida à riqueza material, transforma-se em uma gaiola de Deus. Terceiro, Lutero foi um dos homens mais corajosos da história ao defender sua ética e seu pensamento, enfrentando o poder absoluto do Papa em Roma. Naqueles idos de 1500, enfrentar a ira do Papa e de seus cardeais exigia uma coragem não apenas física, mas também espiritual. No mundo de hoje, é difícil imaginar a dimensão do valor pessoal de Lutero ao assumir o risco de defender a Reforma Protestante, numa época em que toda interpretação contrária ao que…

Entre Halloween e Dia de Finados só um papo mórbido é possível!

Há cerca de quinze dias, uma notícia sobre uma empresa que transforma cinzas em discos de vinil apareceu pela internet. Eu, que nunca pensei muito no que aconteceriam com meus restos mortais (menos os órgãos, esses eu quero doar), encontrei o destino pra eles: vão ser enviados para And Vinyly transformá-los na minha essência: música. Realizado pelo escultor Jason Leach, o serviço custa entre R$3,6 mil e R$12,2 mil. Não é a forma mais barata de se eternizar, mas é uma das mais legais, concordam? A playlist de hoje vem com as músicas que estarão no vinil feito com as minhas cinzas. Mas, sem choro nem vela! É só música animada! Apertem o play!  

Com o compromisso de formar verdadeiros leitores

Essa edição, peço licença para mudar o assunto da coluna. No lugar de séries e filmes, quero escrever sobre um evento muito bacana do qual participei no último fim de semana de outubro. Vamos ao texto! A Festa Literária de Paraty (FLIP), no Sul Fluminense, cuja primeira edição aconteceu em 2003, consolidou no país o modelo de um evento bem-sucedido, que tem aproximado cada vez mais a literatura – em suas mais variadas formas, gêneros e suportes – das pessoas, estimulando a possibilidade de criação de uma rede de novos leitores. Esse é o grande mérito da FLIP: a democratização da paixão pela leitura e sua transformação em uma forma de consumo mais popular. Seu modelo tem sido replicado no país inteiro desde então. E uma de suas irmãs mais novas é a Festa Literária de Nova Friburgo, a FLINF, na serra do Estado do Rio. [caption id="attachment_3392" align="alignleft" width="300"] A professora Eliana Yunes e Marina Colasanti – homenageada da festa literária[/caption] A cidade serrana, conhecida pela produção de roupas íntimas e, mais recentemente, por abrigar boas produtoras de cervejas artesanais, teve sua autoestima abalada com a tragédia das chuvas que caíram na região em 2011, considerada a maior tragédia climática da história do país, com mais de 500 mortes nas quatro cidades atingidas: além de Friburgo, Teresópolis, Petrópolis e Sumidouro. Para piorar, no mesmo ano, o prefeito da cidade foi afastado por conta de denúncias que indicavam o desvio das verbas dedicadas à recuperação do município. Friburgo tem uma história cultural riquíssima. De colonização suíça, completa 200 anos em 2018. Sem me alongar muito, foi lá, por exemplo, que aconteceu o primeiro concerto de Villa-Lobos, em 1915. Lygia Pape, um dos grandes nomes das artes brasileiras - ela foi criadora da identidade visual dos biscoitos Piraquê, seu trabalho mais…