quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A turbulência econômica persiste

A reforma da previdência enfrenta muitas dificuldades e sólidas resistências. O governo vem recuando em alguns pontos e reduziu sua abrangência, depois voltou atrás. No momento está estudando alternativas, o que já provocou alterações na aposentadoria rural. Já os grupos de pressão mais fortes, principalmente de corporações mais privilegiadas, lutam para não sair perdendo ou, ao menos, reduzir suas perdas. O discurso da oposição é oportunista, parece ter esquecido que esta reforma estava sendo encaminhada no governo Dilma e o próprio Lula mencionou, à época, a necessidade de se fazer algo na área previdenciária. Há uma verdadeira guerra de informações desencontradas e mitos induzindo muitos a achar que não há necessidade de reforma. Não é de se esperar que as pessoas que hoje possuem uma expectativa de aposentadoria aceitem que sejam, abruptamente, tolhidas em suas projeções de vida laboral. A reforma é necessária e urgente, ou, como disse uma amiga de esquerda consciente, “um mal necessário”! Qualquer governo, de qualquer tendência, ao receber o país na forma que foi deixado após o afastamento da ex-presidente, não titubearia em promover tal ação reformista. Há, entretanto, questões importantes a serem consideradas na proposta do atual governo. A principal delas diz respeito à universalização. Em lugar de promover uma reforma para todos, restringiu o seu alcance, excluindo classes mais poderosas, que contribuem significativamente para o déficit e possuem os maiores privilégios. Assim, uma proposta elaborada com características muito duras, injusta mesmo, torna-se algo que não é para todos. É muito natural a sua rejeição pela sociedade! A reforma é necessária, mas certamente esta que aí está não é a melhor! Não se pode esquecer, entretanto, que o governo, além de buscar contornar as questões colocadas no TSE e Lava Jato, precisou fortalecer sua base no Congresso (isso tem custo político) e negociar com…

Carnar

car·ne (latim caro, carnis, carne, polpa dos frutos, carcaça) substantivo feminino Tecido muscular. Parte vermelha dos músculos. Animal morto ou porção de animal morto para alimentação. Polpa (dos frutos). Natureza animal do gênero humano. Concupiscência. Corpo, matéria (em oposição a espírito). Consanguinidade. "carne", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/carne [consultado em 31-03-2017].   car·nar (carne + -ar) verbo transitivo Unir por parentesco. Fazer matança de animais para alimentação ou provisão de carne; fazer carnagem. "carne", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/carne [consultado em 31-03-2017].   Então vamos lá. Eu achava que precisava de um pouco mais de prática e destreza nesta coisa de escrever colunas para vir aqui falar sobre um tema tão complexo e delicado, mas esse escândalo da operação Carne Fraca antecipou meus planos iniciais. Sou vegetariana há 16 anos, e sei que essa frase por si só pode afastar metade dos leitores. Calma, este não é um texto ativista, é um texto informativo e questionador. Ativismo pode ser aquilo que fazemos com a informação e conhecimento que temos. Se depois de ler estas linhas seu consumo de carne reduzir, será como um resultado de reflexão – felizmente, vegetarianismo não é doença que contagie, fique tranquilo. 16 anos depois, não tenho mais uma relação religiosa com o alimento. Pelo contrário, se o fanatismo nos afasta do questionamento, esse é o lugar onde não me interessa ficar. Vamos então tentar esclarecer algumas coisas, quebrar alguns mitos, para que possamos entender que mundo é esse da carne antes da Carne Fraca ter tanta cobertura de mídia por aí. Vamos fazer uma viagem por algumas perguntas que me venho fazendo e que fazem com que, no meio de tanta coisa que muda na vida, o olhar critico sobre a carne não fez (ainda) com que eu voltasse a me alimentar dela. A carne? Começando pelo começo... carne é essencialmente tecido muscular. Pode ser também polpa de fruta (pêssego carnudo é um clássico). Vamos nos ater ao tecido muscular. De animais. E isso é o primeiro ponto – por que é que um…

Aula de Literatura em tempos de internet

Bom dia! Tudo bem com vocês? Leram o texto que eu passei na aula passada? Comecei assim muitas aulas de literatura nos cursos de Letras em universidades públicas no Rio de Janeiro, mais precisamente na UERJ e na UFF. A resposta dos alunos, em geral, foi um vago aceno de cabeça, entre o sim e o não. A maioria, quase sempre, não tinha lido o texto indicado, com desculpas várias que iam desde doença, falta de tempo ou, o que é pior, apenas desinteresse. Por que alunos de Letras (e também Jornalismo e Cinema, onde dei aulas) leem pouco permanece um mistério para mim, ainda que reconheça que, dependendo da disciplina, o interesse pelo texto possa ser maior. Também já fui surpreendido por muitos leitores atentos em sala de aula, que não só leem os textos indicados como fazem perguntas questionadoras, descobrindo ângulos inusitados para os temas abordados. Desde o final dos anos 1990, com a popularização da internet, o acesso a conteúdo digital se mostrou um recurso de muita utilidade para professores e estudantes, mas também bastante enganoso, sobretudo para quem se deixa (ou deixava) levar pelo aparente comprometimento de muitos sites que parecem sérios e na verdade apenas reciclam sem critério informações de outras fontes. Esse tipo de “saber requentado” talvez pudesse ser chamado hoje de antecedente da pós-verdade, quando o que mais importante é a veemência do que a fidelidade aos fatos. Nesse período de ascensão da cultura digital, a possibilidade de encontrar um texto raro na internet era um alento para ilustrar uma preparação de aula, ainda que a falta de mecanismos de busca abrangentes tornasse a tarefa uma garimpagem bastante aleatória. Nada que se compare aos segundos que cada um gasta hoje no Google, Bing, Yahoo ou mesmo fora desses mecanismos de busca, nos sites…

Cartola e Beth Carvalho se encontram na Praça Tiradentes

Dois dos maiores nomes da nossa música estão se encontrando todos os fins de semana na Praça Tiradentes: Cartola e Beth Carvalho. Infelizmente, esse encontro não é um daqueles pra valer, como quando a jovem Beth subiu a Mangueira para ir ao “barraco” do compositor pedir músicas e ele mostrou “As rosas não falam”, “O mundo é um moinho”, “Corra e olhe o céu”, todas inéditas (e Beth ainda teve que ouvir de Cartola que o “moinho” não era música pra ela, por ser muito lenta; mas a cantora gravou um ano depois e estourou no país todo). Pois o encontro de que falamos aqui é nos palcos: de um lado, no Teatro Carlos Gomes, está em cartaz “Cartola – O mundo é um moinho”; de outro, no João Caetano, é encenado “Andança – Beth Carvalho, o musical”. No meio dos dois, reina a Praça Tiradentes, local que traduz tão bem a alma carioca, servindo de porto para as obras desses dois artistas de tanta importância para a nossa cultura. Ver os espectadores saindo dos dois teatros depois das apresentações é certeza de sorriso no rosto: vale a pena conferir as montagens. O musical sobre Cartola traz ótimo texto de Artur Xexéo, contando a trajetória do compositor como se fosse enredo de escola de samba. O elenco liderado por Flávio Bauraqui, Virgínia Rosa e Adriana Lessa está afiado, mostrando com competência a vida de Cartola, que, como se sabe, é recheada de reviravoltas surpreendentes. Já o musical que conta a vida de Beth Carvalho, embora sem a mesma excelência cênica, tem um trunfo incomparável: o repertório que Beth gravou ao longo de sua carreira é um dos melhores da música popular brasileira. Conhecida por seu talento como descobridora de novos autores e pelo trabalho de resgate de antigos bambas, Beth…

Punho de… ferro?

Mês de março dá um certo nervoso para quem acompanha séries: é uma tonelada de estreias e de novas temporadas que não para mais. Fica difícil sair de casa. E mal estou conseguindo cumprir o prometido dessa coluna, em que quinzenalmente se alternariam cultura pop com cultura de rua. Mas eu consigo, vou conseguir. Porém, enquanto não é possível desbravar os bares e outras coisas bacanas que existem por aí afora na frequência que gostaria, continuo incansável na programação de séries. Punho de Ferro: Estreou enfim a série da Netflix de mais um herói da Marvel Comics. Danny Rand é um jovem milionário que sofre um acidente aéreo com os pais ainda criança quando voava pelo Himalaia. Ninguém sobrevive, a não ser o moleque, que é resgatado por uns monges guerreiros de uma cidade mística situação em outra dimensão, chamada K´un L´un. Lá, ele aprende a técnica suprema para evocar e concentrar o seu chi/sua energia interior nos seus punhos, garantindo-lhe um soco destruidor. A premissa é muito parecida com sua origem nos quadrinhos e, na telinha, sua história começa quando ele retorna da tal cidade para Nova York quinze anos depois de ser dado como morto no acidente. Obviamente, a reação das pessoas é a pior possível e ele passa de um jovem louco para uma grande ameaça num piscar de olhos. Na verdade, a série tem uma variedade de pontos fracos e parece ter sido produzida às pressas, com pouco esmero no roteiro. Mesmo as coreografias de luta – Daniel Rand, além de ter punhos poderosos, é um grande artista marcial – são fracas. O ator principal ainda não achou o ponto de interpretação e, pelo texto simplório, acredito que não seja inteiramente culpa dele: o homem que herdou o manto do Punho de Ferro parece ingênuo –…