sábado, 7 de dezembro de 2019

Poesia em azul e branco

A Portela encerrou seu jejum de 33 anos sem ganhar o carnaval do Rio, ao conquistar o título de 2017, com o enredo “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar”. A seca era maior ainda se pensarmos que em 1970 foi a última vez que a Azul e Branco levantou o caneco sozinha. Mas como uma escola que não subia ao pódio sozinha há quase 50 anos se mantém tão popular, sendo sinônimo de samba e carnaval nos quatro cantos do país – e até do exterior? A resposta está na importância da Portela na música popular brasileira. Ela nunca deixou de fazer parte das rodas de samba, da programação das rádios, dos shows Brasil afora. Em muitos lugares onde se ouve uma canção tocar, a Águia está presente. Tudo começou com Paulo da Portela, que foi fundador da escola, em 1923, quando ainda era chamada de Conjunto Oswaldo Cruz e desfilava como bloco. Além de ter sido peça fundamental para os rumos do samba (era chamado de “civilizador” e defendia que os sambistas andassem bem arrumados, para serem respeitados), Paulo Benjamin de Oliveira foi um grande compositor. Já em 1931 viu seu samba “Quem espera sempre alcança” ser gravado por Mário Reis. Em 1939, compôs aquele que foi considerado o primeiro samba-enredo da história, “Teste de samba”, uma obra feita para contar uma história em desfile. Chegou a ser eleito o maior compositor das escolas de samba, em concurso promovido pelo jornal “A nação”, e teve um programa de rádio com Cartola em que apresentavam sambas inéditos. Ou seja, há quase 90 anos atrás, o público já era brindado com músicas portelenses (para quem não conhece sua obra, indico o disco “Homenagem a Paulo da Portela”, da Velha Guarda). Logo na geração seguinte, surgem dois…

Um olhar sobre nós mesmos

Confesso que jamais vi tamanha crise de descrença no Brasil como a que nos assola. Em minhas sete décadas de existência e lá vai fumaça, nunca vivi a sensação de que uma onda de tsunami estaria por desabar sobre o Brasil. Quero exclamar, já asfixiado pela persistência das parolagens das previsões, que basta! Basta de tiros do persistente pelotão de fuzilamento contra o país. E vou de pronto avisando que não sou um otimista em frêmitos de gozos, como certas caricaturas de escritores do passado, ou como os sambas de exaltação do meu brasil-brasileiro dos anos 40. Não, nada disso. E quem me conhece sabe de minhas ásperas indignações. Tom Jobim cunhou frase amarga, “a melhor saída para o Brasil é mesmo o aeroporto”. Por outro lado, Nelson Rodrigues disparou que “temos complexo de cachorro” ou que “o Brasil não é popular no Brasil.” Nem tanto, nem tão pouco. Até porque cientistas sociais do porte de Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco, Sergio Buarque de Hollanda ou Gilberto Freyre, os chamados inventores do Brasil, forneceram uma identidade ao país a partir da miscigenação, e da apetência para a paz, tanto interna quanto externa. Esta, fartamente experimentada nos mais de 500 anos de boas relações com nossos onze vizinhos. Aliás, o sociólogo italiano boa gente Domenico de Masi nos fez um afago ao refletir sobre a crise atual. Disse que o Brasil é o país do futuro, e o futuro chegou (este exatamente o nome do seu novo livro, mais um mimo pró-Brasil). Ele ainda agrega uma controvérsia (com ressabiado fundo de verdade), ao proclamar que os pessimistas no Brasil, assim como em qualquer país do mundo, são os intelectuais. Uma paráfrase, agora me dou conta, do quase sociólogo Joãozinho Trinta, quando bradou do alto do sambódromo “quem gosta de miséria é…

Feliz 2017!

Não. Não estou atrasado. A chegada da Quarta-Feira de Cinzas marca o encerramento da folia e o início de 2017. Fiquei achando por anos que essa ideia de o ano começar depois do carnaval era uma tremenda bobagem mas, aos poucos, me rendi. O período pré-momesco tem um ritmo bastante diferente, principalmente em se tratando do Rio de Janeiro: há uma lentidão, uma indolência – que muitos creditam às intempéries de nosso verão, com um calor acachapante e desanimador. Não faço parte daqueles que reclamam da temperatura mas...me rendo mais uma vez aos fatos. Enquanto a gente se esconde no ar-condicionado, fingindo ignorar a conta de luz que não tarda a chegar com o valor lá nas alturas, seguindo a tendência do nosso calor carioca, aproveitei para selecionar umas três pérolas da TV para indicar aqui. O ano começa também na telinha.   Legion: Finalmente a FOX decidiu investir a fatia que detém do universo Marvel – os X-Men – na criação de séries para TV, a exemplo das bem-sucedidas séries da própria Marvel com a Netflix (Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e, em breve, Punho de Ferro). A ampliação da franquia resultou na boa ideia e no risco – sempre bem-vindo – de se adaptar a história de um personagem secundário do universo mutante – David Haller, filho do professor Charles Xavier – para a telinha. O resultado é “Legion” (FX), série que retrata as desventuras do herói. O detalhe: Haller é esquizofrênico. E cada uma de suas personalidades tem um poder diferente. O episódio de estreia captou muito bem a fragmentação da personagem. Tem um clima psicodélico, totalmente “fora da casinha”, como deve ser. Quem viu “Deadpool”, outro produto bem-sucedido ao quebrar convenções de filmes de herói, vai gostar.   The Walking Dead: A segunda parte da sétima…

Ler aos pedaços

Há tempos o hábito de abrir o jornal diário para saber as notícias do dia foi substituído por um clique no celular e o acesso a sites ou redes sociais. Leio, recebo e quase engulo mais informação do que sou capaz de processar – só os muito protegidos não passam por isso. Depois de uma noite de sono nem sempre bem dormida, com muitos livros na cabeceira, o mundo chega pela internet em grandes goles, tsunâmico. O clique para saber o que acontece em toda parte se tornou incontornável, já que a maioria das pessoas, seja por questões profissionais ou pessoais, faz contato por e-mail (considerado ultrapassado por muitos, mas não por mim), WhatsApp (usado com muito exagero) e pelo messenger do Facebook (que parece funcionar mesmo quando todos os outros aplicativos estão fora do ar). Neste cotidiano excessivamente interativo, quem nunca teve vontade de esquecer de ligar o celular, desktop ou notebook? Excessivamente obediente na prática de “dar retorno”, tenho tentado esquecer dos gadgets pelo menos até às 10h, ainda que a inquietação faça com que às vezes, durante a madrugada, ligue o smartphone para ver se encontro alguma mensagem perdida. (Precisei colocar o celular no modo silencioso para conseguir algum tempo de silêncio para escrever este texto. Uma madrugada dessas uma pessoa tentou fechar um pedido de encomenda pelo messenger, verificando meu endereço. De outra vez uma conhecida me enviou o convite de aniversário às 6h e me acordou. Virou questão de saúde e de bom sono desligar o aparelho.) No meio disso tudo, a leitura programada, consentida, se tornou uma maratona na qual é preciso muita força de vontade para chegar à última página. Estou me referindo à leitura de um livro de poesia, ficção, teoria literária, biografia, história, um livro de trabalho ou puro alimento do…