sábado, 7 de dezembro de 2019

A desordem fiscal e o desemprego

Nos supostos anos dourados dos governos petistas, muitas conquistas eram exaltadas e, em especial, o aumento dos empregos, notadamente aqueles ditos formais. Uma conjuntura econômica por algum tempo favorável permitiu que se propagasse a ideia de sucesso, que gastar era “sempre” um caminho e que reformas estruturais não eram assim tão urgentes. Quando os primeiros sinais surgiram, indicando que algo estava errado, o governo ratificou seu discurso, mas o crédito se expandiu, as desonerações se afirmaram e os subsídios nos empréstimos carimbados do BNDES produziram algo. Mas foi pouco. O aumento do desemprego já estava marcado para acontecer, mas é sempre o último na escala da tragédia das políticas econômicas desconectadas da realidade. O endividamento subiu, a inadimplência aumentou, a renda caiu, a inflação subiu, o PIB derreteu, a dívida pública se expandiu e a política de estímulos ao setor produtivo, via subsídios, gerou impacto de R$ 125 bilhões nas contas públicas. O custo desses subsídios (diferencial entre o custo de captação e o custo dos empréstimos) foi divulgado agora: R$ 109 bilhões até 2060. Nada foi feito para resolver a desorganização fiscal. A política de teto dos gastos, agora adotada, foi ventilada em 2011 e repudiada. Como se sabe, a presidente à época tinha uma ideia muito particular em relação aos gastos públicos. Dizia ela, com ênfase: “gasto é vida!” Tudo deu errado e aquilo que mais se preservava, o emprego, ruiu, caiu por terra, o que não impediu a manutenção do discurso vigente à época, até o último minuto ou, se preferir, até o último voto. Um novo governo surgiu e, embora muitos de seus integrantes, incluindo o próprio presidente, tenham participado dos tempos petistas, uma política econômica voltada para a edificação de fundamentos mais sólidos em nossa economia, começa a arranhar de leve uma recuperação, mas há…

Os Acadêmicos do Brasil

É da natureza humana que os semelhantes se aproximem, se afinem e, se possível, se estimem. Pactos de cordialidade deveriam ser da essência dos que se agregam em torno de uma determinada idéia. Razão por que o francês Montesquieu vaticinou, do alto de sua sabedoria, que os chamados iguais careciam, acima de qualquer outra convergência de comportamento, serem... cordiais. Este tipo de procedimento é destroçado impiamente (muito mais agora), pelos políticos que nos representam nos tempos obscuros de hoje. As pontuações acima vêm a propósito do que tenho observado, e não de hoje, na Academia Brasileira de Letras. Os quarenta intelectuais que a integram sinalizam uma forma miniaturizada de gestão e de comportamento ideais, ou próxima disso. Não sem razão são conhecidos como imortais, talvez uma homenagem a que o Brasil se afeiçoou pela exemplaridade do funcionamento da Casa. Seria, por que não?, a idealização da República perfeita dos antigos filósofos gregos, ou seja, cidadãos, notáveis em respeitabilidade, a gerir a Coisa Pública. De fato, acho que a atmosfera que existe entre os pares da ABL, bem merece o “Senado” que os abriga, o encantador Petit Trianon, raríssimo exemplar arquitetônico da exposição de 1922, destruída despudoradamente pela escassez de cultura e de sensibilidade, além de falta de visão histórica, dos prefeitos da cidade. Nos últimos anos, já há muitos, a Academia Brasileira, criada por Machado de Assis nos moldes da Academia Francesa, transformou-se em uma fábrica de ações culturais. Que não cuida apenas de letras, mas avança destemidamente por todos os desvãos do conhecimento humano, que podem ir da política aos desafios de teses audaciosas, seminários, ciclos de palestras e ainda concertos de música(inclusive a popular). Há pouquíssimo tempo, abriram-se duas vagas simultâneas, quase simultâneas, as de Ivo Pitanguy e Ferreira Gullar. E vocês não imaginam, embora disputadíssimas por qualquer…

Constelação de poetas na Sapucaí

A história do carnaval, como de toda manifestação popular, é de uma eterna negociação simbólica com a sociedade à sua volta. As escolas de samba aceitam incorporar alguns elementos exteriores ao seu dia a dia, desde que outros valores essenciais sejam mantidos. Foi assim que vimos as baterias fazendo batida funk, a linguagem pop se incorporando aos enredos, as celebridades tomando o posto de rainhas de bateria, as comissões de frente virando espetáculos. Ao mesmo tempo, as alas de baianas continuam trazendo as mães do samba, com seus giros nos refrãos; o casal de mestre-sala e porta-bandeira mantém sua solenidade e sua importância como quesito; os instrumentos da bateria são os mesmos de outrora; o desfile em cortejo praticamente não sofreu modificações ao longo dos tempos. É uma via de mão dupla, em que as escolas são influenciadas pelo entorno, assimilando algumas características, enquanto fazem questão de perpetuar símbolos importantes para aquela coletividade. E assim o carnaval mantém sua identidade, sem perder o frescor e o ímpeto de renovação. Nesse processo, os artistas do carnaval sempre dialogaram com o meio cultural à sua volta. Cantores como Jamelão e Roberto Ribeiro tinham trânsito livre na MPB. Grandes compositores, como Silas de Oliveira, Martinho da Vila e Paulinho da Viola, emergiram das escolas de samba para serem gravados por diversos nomes da nossa música. Delegado, Vilma Nascimento, Tijolo e Paula do Salgueiro eram reconhecidos como exímios dançarinos em qualquer palco. Mas, aos poucos, essa conexão foi se perdendo. Os astros do carnaval começaram a se voltar cada vez mais para dentro e diminuiu essa influência no dia a dia da cidade. Faço essa introdução para saudar um dado relevante do carnaval 2017: a presença de compositores de sucesso no chamado “samba de meio de ano”, que vêm experimentando as delícias de se…

Não basta ser pai. Tem de torcer junto.

A campanha é dos anos 1980. Gelol. "Não basta ser pai, tem de participar" era o slogan. Autoexplicativo. Não sonhava ainda ser pai - embora achasse que a gente devesse nascer com filho. Ainda mais os meus. Mas, com os anos, e com o trabalho pesado, embora prazeroso, dentro do impossível, tento ficar o tempo que posso com a família. Com a graça que Deus me deu de, no segundo casamento, ganhar mais três filhotes que vieram com minha mulher. Somos cinco. Meus dois palmeirenses como os avós e como toda a minha família - e a da mãe deles. Ganhei de enteados no novo casamento um são-paulino como o avô - mas tão tricolor quanto Barcelona; um corintiano como o pai mas que é light - ufa; e uma caçulinha linda e palmeirense como a mãe de olhos e coração verde. Dei sorte em tudo. Mas não brinco com ela. Já vi muitos amigos e queridos colegas de ofício perderem os filhos para outros credos e cores. Como todos os domingos e quase todos os jogos estamos em cabines e gramados, mal conseguimos torcer juntos com as crianças em estádios e poltronas por nossos times. Muitas vezes, os filhos de jornalistas esportivos acabam cooptados pelos lados negros (ou tricolores, colorados, celestes, da força) e não torcem pela paixão que quase sempre levou os pais ao jornalismo esportivo. Também por isso, desde sempre, meu filhos vão a jogos, treinos, eventos, o que for do Palmeiras. E, também por isso, apesar da talibancada patrulheira das redes sociais, fui recepcionar Borja em Cumbica, seis da manhã de sábado. Fiz questão de filmar, fotografar e não filtrar a história para que histéricos de todas as cores não usassem como usaram o fato como prova de clubismo, bairrismo, parcialidade, isenção zero, patrulhamento dez, sem…

Literatura do silêncio e da balbúrdia

Quando o editor Carlos Augusto Cruz me fez o convite para escrever esta coluna, fiquei paralisado em frente ao e-mail recebido: “Como alguém pode começar algo a essa altura dos acontecimentos? - pensei, em uma paráfrase involuntária de um verso famoso de Carlos Drummond de Andrade no poema “O sobrevivente”, publicado em seu livro de estreia, Alguma poesia (1930), e iniciado pelo verso Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. No lodaçal em que estamos atolados no Rio de Janeiro – política, econômica e conceitualmente -, a notícia mais frequente é o fim de redações, hospitais fechados, universidades estaduais ameaçadas pela extinção ou privatização, demissões, fusões e todo tipo de restrição que o cenário recessivo pode sugerir. Mas... não, o convite era mesmo para participar do lançamento de uma nova plataforma digital! Muito me alegra participar desta empreitada que nos traz de novo à mente O Quinze, livro de estreia da cearense Rachel de Queiroz que, ao retratar de modo extremamente simples a saga da arrasadora seca no Nordeste em 1915, marcou o romance brasileiro da primeira metade do século XX com vozes de retirantes pouco presentes na literatura brasileira. Pouco mais de cem anos depois, vivemos um momento radicalmente diferenciado da década de 1930 que nos apresentou, além de Rachel, outros grandes narradores das vozes periféricas do Nordeste, como Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego. Durante o século XX, o Brasil ganhou cada vez mais o espaço urbano e as histórias de um país agrário foram sendo substituídas pelas narrativas das cidades. Com a ascensão do mundo digital nos estertores do século, as vozes marginalizadas e minoritárias passaram a entrar todas em cena (ou, pelo menos, parecem estar nela) e ganharam lugar para apresentar suas próprias histórias, em tom autobiográfico ou não,…

Canadá: de carro pela estrada mais bonita do mundo

Há um ditado que diz que "a melhor parte de uma viagem é o caminho, não o destino." Confesso que nunca entendi muito bem. Mas isso foi até conhecer a região das Montanhas Rochosas, na costa oeste do Canadá, onde a estrada não é uma mera estrada, é a verdadeira protagonista. Para muitos, a rodovia Icefields Parkway (Highway 93 North), que cruza os parques ecológicos Banff e Jasper National Parks, é uma das estradas mais bonitas do mundo. E não é pra menos. Ao longo da rodovia, há montanhas com neve, lagos de água azul turquesa, rios, cachoeiras, geleiras… São tantos elogios que a revista National Geographic já citou esse percurso como sendo uma jornada inesquecível, utilizando o termo inglês "a drive for a lifetime". (mais…)