Edição 24

15/02/2018

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sábado, 24 de fevereiro de 2018
Educação

Persistindo no erro

Nada surpreenderá mais os analistas futuros de história deste momento do que o fato de não ter sido feita até aqui nenhuma autocrítica por algum dos dirigentes do governo Lula e Dilma. Para o Brasil, mais importante do que aumentar a pena do ex-presidente Lula teria sido ele reconhecer os erros cometidos. Ampliar o tempo de prisão em nada vai mudar o Brasil. Mas ajudaria muito termos uma análise crítica por parte dos dirigentes do PT indicando onde erraram. Ainda que insistam que as condenações são injustas, é lamentável que não percebam que houve erros graves, que voltarão a se repetir se não houver um pedido de perdão ao país. Lula deveria reconhecer o equívoco da promiscuidade do governo com as empreiteiras e da nomeação de incompetentes e notórios suspeitos de corrupção para dirigir estatais. Também foi um erro a escolha de Temer para vice-presidente, duas vezes, para garantir eleição e reeleição da Dilma. O PT e seus dirigentes precisam autocriticar-se e pedir desculpas pela perda do vigor transformador que justificou seu crescimento. Ao perder esse vigor, o partido e seus dirigentes abandonaram suas bandeiras transformadoras, caíram no “compadrismo” na política e no assistencialismo social. No lugar do esperado choque no patrimonialismo, caiu no populismo, casamento infeliz entre o patrimonialismo burguês e sindical com o assistencialismo social. Exemplo disso é o tratamento eleitoreiro dado pelos governos Lula e Dilma à educação: relegou cuidados aos 13 milhões de analfabetos adultos para priorizar programas de acesso à universidade. Mais do que prisão dos corruptos, como determina a Lei, seria mais produtivo para o país contar com autocríticas e pedidos de perdão. José Dirceu, por exemplo, não fez delação premiada, mas foi incapaz de fazer uma autocrítica do desempenho de seu tempo no governo.

Narrativas falsas

O mundo descobriu recentemente o poder e o risco das “fake news”. Mas no Brasil há décadas somos vítimas de narrativas falsas que corrompem nossa maneira de pensar. Para defender seus gastos, o governo corrompe a aritmética e cria a falsa narrativa da moeda com a inflação. O resultado foi o crescimento da riqueza nas mãos dos poucos ricos e a persistência da pobreza na vida de uma multidão. O atual presidente foi escolhido vice duas vezes pela presidente impedida. O impeachment seguiu prescrições constitucionais e as instituições continuam funcionando. Mas ainda prevalece a falsa narrativa de golpe. Da mesma forma, sustenta-se a falsa narrativa de que a Lava Jato vai salvar o Brasil, esquecendo-se que juiz pode mandar prender político corrupto, mas não elege político honesto. É também falsa a narrativa de que a cassação do direito político de um corrupto a candidatar-se vai educar o eleitor, quando poderá até acomodá-lo. Todos que não forem condenados serão vistos como igualmente bons. Depois do “rouba, mas faz”, cairemos no “se não rouba, já é bom”, não importando suas prioridades e competência. O Brasil vai continuar igual se não nos educarmos como eleitores. Quando se discutia a Lei da Ficha Limpa, defendi que o Ficha Suja deveria poder ir à campanha como os cigarros vão à venda, com o aviso de que “este candidato foi condenado por corrupção e faz mal à saúde nacional”. A Lei da Ficha Limpa deu à Justiça o poder de condenar e cassar. Vamos ter de conviver com ela esperando educar o eleitor por outros meios, mas alertando que acreditar plenamente em narrativas falsas, não educa.

Afogamento e fuga

Em 1995, nasceram 3,1 milhões de crianças no Brasil. Hoje, 30 mil delas continuam analfabetas. Cerca de 2,6 milhões concluíram o ensino fundamental e pouco mais de 2 milhões terminaram o ensino médio. E dessas pouco mais de 600 mil enfrentarão os desafios da sociedade do conhecimento. Pouco mais de 720 mil (49%) estão no ensino superior e, considerando a taxa de abandono, não chegará a 355 mil (11,5%) as que até 2022, concluirão a faculdade. Apenas 17 mil (0,55%), das nascidas em 1995, farão pós-graduação e se tornarão cientistas. Menos de mil das crianças nascidas em 1995 serão cientistas de nível internacional. A perversidade dessa pirâmide mostra o despreparo do Brasil para ingressarmos com eficiência no século XXI. Ainda pior, boa parte dos talentos científicos estão indo para países onde desenvolvem melhor suas atividades com mais qualidade de vida. Entre o nascimento e a vida adulta, o Brasil afoga milhões de cérebros na infância e está provocando a fuga dos poucos que conseguem avançar até o último nível do conhecimento formal. Assistimos passivamente ao afogamento e fuga de nossos cérebros, sem perceber que estamos perdendo nosso ouro. Permitimos que levem a verdadeira e permanente riqueza: a inteligência de nossas crianças e o conhecimento dos nossos doutores. Não teremos futuro se não formos capazes de aproveitar os cérebros de todas as crianças, de mantê-los aqui em atividade e de trazer de volta nossos cientistas, dando-lhes todas as condições de trabalho.

Outra forma de escravidão

Em 2012, o jogador de futebol Raí falou em entrevista que, durante o tempo em que defendeu o Paris Saint Germain, na França, a filha dele frequentava a mesma escola de altíssima qualidade que a filha da empregada da família. Naquela ocasião, Raí perguntou por que essa não era a realidade aqui do Brasil. O futuro de cada país decorre da formação de seus cidadãos, da capacidade de usar o potencial de seus cérebros. Dos mais de três milhões de brasileiros que nasceram em 1995, no máximo mil estão caminhando para se tornarem bons cientistas, filósofos, escritores, em nível internacional. E desses, uma boa parte está emigrando para outros países. Sem educação de qualidade para todos, não teremos o futuro de produtividade na economia, nem competitividade necessária para enfrentar a globalização. Estaremos desperdiçando cérebros e mantendo a vergonha da desigualdade social que nos caracteriza, desde os tempos da escravidão. Para ter educação de qualidade igual para todos, é preciso criar uma carreira nacional do magistério bem remunerada, para atrair os jovens, exigindo deles dedicação exclusiva e avaliação de desempenho. É imprescindível também escolas em prédios confortáveis, com novos equipamentos, funcionando em horário integral. No Brasil parece haver uma falta de indignação com nosso atraso educacional e com a desigualdade na oferta de vagas conforme a renda das famílias. Não valorizamos o conhecimento. Não olhamos para frente, em sintonia com o “espírito do tempo”. Por isso mantivemos a escravidão por quase 70 anos, depois da independência, e estamos há mais de cem, desde a República, sem fazer o que precisamos para ter uma educação boa para todos, como Raí viu na França.

Perdão

Perdão pelas balas perdidas, pelos adultos perversos, pelos colegas desorientados. Perdão pelos anos que não conseguimos lhes dar. Perdão também aos sobreviventes, pela falta de atendimento médico, de escola de qualidade, de esperança no futuro e carinho no presente. Perdão! Raphaella Noviski, 16 anos - Felipe Faria Gomes, 16 anos - Géssica Guedes Pereira, 16 anos - Milena dos Santos Nascimento, 15 anos - Luiza Paula da Silveira Machado, 15 anos - Joice Souza de Oliveira Nascimento, 15 anos - Joice de Araújo Lima, 15 anos - Eloá Pimentel, 15 anos - Samira Pires Ribeiro, 14 anos - Rafael Pereira da Silva, 14 anos - Laryssa Silva Martins, 14 anos - Karine Chagas de Oliveira, 14 anos - João Vítor, 14 anos - Bianca Rocha Tavares, 14 anos - Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos - Mariana Rocha de Souza, 13 anos - Larissa dos Santos Atanásio, 13 anos - Igor Moraes, 13 anos - Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos – João Vitor Gomes Luanderson Lima, 12 anos - Lorena Moreira, 12 anos - Ítalo Gabriel Souza, 12 anos - Vanessa Vitória dos Santos, 11 anos - Romário Batista da Silva, 11 anos - Monique Evelyn Florencio Silva, 11 anos - Matheus Garcia Cabral, 11 anos - Maria Eduarda da Silva Sardinha, 11 anos - Kerolly Alves Lopes, 11 anos - Iago Chagas Ribeiro, 11 anos - Álvaro Miguel Peres de Sousa, 11 anos - Kauã Machado Tavares Nieto, 10 anos - Josefa Mirian da Silva, 10 anos - Guilherme Vitorino da Silva, 10 anos - Giovanna Ramos Duarte, 10 anos - Fabrício do Nascimento Vieira, 10 anos - Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos - Bruna da Silva Ribeiro, 10 anos - Adrielly Vieira, 10 anos - Maria Letícia de Santana da Silva, 9 anos -…

Lutero: ética, inteligência e coragem

Cada um de nós deveria, de vez em quando, identificar as pessoas que foram determinantes na nossa vida: pais, mestres, irmãos, namoradas, amigos, autores, artistas. Pessoas que mudaram o mundo ou mudaram a nossa própria maneira de ser e pensar. Raramente, quem mudou o rumo da história é determinante também no dia-a-dia da vida de cada um de nós. Mas alguns conseguem isso. Martinho Lutero é um exemplo desses raros seres humanos. Na religiosidade, não sou formado como luterano, nem mesmo como evangélico. Minha formação foi em colégio católico, mas sou observador do mundo e, como tal, desde muito jovem, admiro Martinho Lutero. Fui influenciado por ele, como praticamente todos no mundo ocidental, mesmo sem saber. Primeiro, pelo exemplo de sua ética ao recusar uma Igreja acumuladora de riquezas materiais, seja para a instituição, seja para o enriquecimento pessoal do sacerdote. Para Lutero, a religião é para promover a fé, a espiritualidade, não para o materialismo. A ética luterana era uma novidade radical na Europa Católica do século XVI, quando religião e dinheiro conviviam de mãos dadas. Segundo, por ele ter transformado sua ética em um pensamento, representado nas 95 teses que pregou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 1517. Séculos depois, um filósofo disse que a religião, quando submetida à riqueza material, transforma-se em uma gaiola de Deus. Terceiro, Lutero foi um dos homens mais corajosos da história ao defender sua ética e seu pensamento, enfrentando o poder absoluto do Papa em Roma. Naqueles idos de 1500, enfrentar a ira do Papa e de seus cardeais exigia uma coragem não apenas física, mas também espiritual. No mundo de hoje, é difícil imaginar a dimensão do valor pessoal de Lutero ao assumir o risco de defender a Reforma Protestante, numa época em que toda interpretação contrária ao que…