Edição 19

15/11/2017

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quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Educação

Perdão

Perdão pelas balas perdidas, pelos adultos perversos, pelos colegas desorientados. Perdão pelos anos que não conseguimos lhes dar. Perdão também aos sobreviventes, pela falta de atendimento médico, de escola de qualidade, de esperança no futuro e carinho no presente. Perdão! Raphaella Noviski, 16 anos - Felipe Faria Gomes, 16 anos - Géssica Guedes Pereira, 16 anos - Milena dos Santos Nascimento, 15 anos - Luiza Paula da Silveira Machado, 15 anos - Joice Souza de Oliveira Nascimento, 15 anos - Joice de Araújo Lima, 15 anos - Eloá Pimentel, 15 anos - Samira Pires Ribeiro, 14 anos - Rafael Pereira da Silva, 14 anos - Laryssa Silva Martins, 14 anos - Karine Chagas de Oliveira, 14 anos - João Vítor, 14 anos - Bianca Rocha Tavares, 14 anos - Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos - Mariana Rocha de Souza, 13 anos - Larissa dos Santos Atanásio, 13 anos - Igor Moraes, 13 anos - Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos – João Vitor Gomes Luanderson Lima, 12 anos - Lorena Moreira, 12 anos - Ítalo Gabriel Souza, 12 anos - Vanessa Vitória dos Santos, 11 anos - Romário Batista da Silva, 11 anos - Monique Evelyn Florencio Silva, 11 anos - Matheus Garcia Cabral, 11 anos - Maria Eduarda da Silva Sardinha, 11 anos - Kerolly Alves Lopes, 11 anos - Iago Chagas Ribeiro, 11 anos - Álvaro Miguel Peres de Sousa, 11 anos - Kauã Machado Tavares Nieto, 10 anos - Josefa Mirian da Silva, 10 anos - Guilherme Vitorino da Silva, 10 anos - Giovanna Ramos Duarte, 10 anos - Fabrício do Nascimento Vieira, 10 anos - Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos - Bruna da Silva Ribeiro, 10 anos - Adrielly Vieira, 10 anos - Maria Letícia de Santana da Silva, 9 anos -…

Lutero: ética, inteligência e coragem

Cada um de nós deveria, de vez em quando, identificar as pessoas que foram determinantes na nossa vida: pais, mestres, irmãos, namoradas, amigos, autores, artistas. Pessoas que mudaram o mundo ou mudaram a nossa própria maneira de ser e pensar. Raramente, quem mudou o rumo da história é determinante também no dia-a-dia da vida de cada um de nós. Mas alguns conseguem isso. Martinho Lutero é um exemplo desses raros seres humanos. Na religiosidade, não sou formado como luterano, nem mesmo como evangélico. Minha formação foi em colégio católico, mas sou observador do mundo e, como tal, desde muito jovem, admiro Martinho Lutero. Fui influenciado por ele, como praticamente todos no mundo ocidental, mesmo sem saber. Primeiro, pelo exemplo de sua ética ao recusar uma Igreja acumuladora de riquezas materiais, seja para a instituição, seja para o enriquecimento pessoal do sacerdote. Para Lutero, a religião é para promover a fé, a espiritualidade, não para o materialismo. A ética luterana era uma novidade radical na Europa Católica do século XVI, quando religião e dinheiro conviviam de mãos dadas. Segundo, por ele ter transformado sua ética em um pensamento, representado nas 95 teses que pregou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, em 1517. Séculos depois, um filósofo disse que a religião, quando submetida à riqueza material, transforma-se em uma gaiola de Deus. Terceiro, Lutero foi um dos homens mais corajosos da história ao defender sua ética e seu pensamento, enfrentando o poder absoluto do Papa em Roma. Naqueles idos de 1500, enfrentar a ira do Papa e de seus cardeais exigia uma coragem não apenas física, mas também espiritual. No mundo de hoje, é difícil imaginar a dimensão do valor pessoal de Lutero ao assumir o risco de defender a Reforma Protestante, numa época em que toda interpretação contrária ao que…

Suissinato das universidades

O futuro de um país tem a cara de sua escola no presente. Cortar recursos para a universidade é como suspender transfusão de sangue para o país. O que acontece com a UERJ é um exemplo disso, portanto, o futuro do Brasil não parece bonito nem próspero. Ainda mais quando percebemos que a crise é de todo o conjunto de nosso ensino superior. Embora a falta de verbas seja a causa mais visível, a tragédia tem motivos internos que exigem uma autocrítica. Há décadas a universidade estatal brasileira vem cometendo o suicídio de uma morte anunciada, apressada pelo assassinato por governos irresponsáveis: abandono e acomodamento formam o veneno do “suissinato”. A qualidade do ensino superior depende diretamente da educação de base. Apesar disso, a universidade assistiu à degradação do ensino infantil, fundamental e médio sem lutar politicamente para forçar prioridade para elas. Também não se dedicou a formar bons professores para nossa educação de base. A comunidade acadêmica falhou ao não lutar contra a irresponsabilidade fiscal, aplaudindo a construção de estádios e implantação de programas populistas e fechando os olhos à corrupção, o déficit agora é pago com o corte de verbas. A universidade deve lembrar que a gratuidade é paga com dinheiro do conjunto da sociedade. Diante do previsível esgotamento fiscal do Estado, a universidade precisa ser mais eficiente na gestão dos recursos que recebe e na captação de verba complementar em fontes não estatais, como fazem as universidades em todo o mundo. Mesmo em tempo de austeridade gastamos mais do que as universidades europeias e asiáticas que estão entre as melhores do mundo. A universidade se contenta em ser basicamente escada social, pela outorga de diplomas, no lugar de ser alavanca para o progresso, pela inovação do saber em todas as áreas. Está desconectada do setor produtivo. Perdemos…

Comemoração Incompleta

Daqui a cinco anos, o Brasil ingressará no terceiro centenário de sua história como país independente. Neste 7 de setembro, aos 195 anos de nossa independência, é possível comemorar o que nossos antepassados conseguiram. Atravessamos quase duzentos anos consolidando um imenso território soberano e unificado por redes de transporte, de comunicações, de distribuição de energia, a economia brasileira está entre as maiores do mundo no valor do produto, passamos de 200 milhões de habitantes. Não há dúvida de que temos que comemorar os primeiros dois séculos. Mas se no lugar de olharmos para a história olharmos ao redor, a festa perde seu brilho. Comemoramos um elevado PIB, o oitavo do mundo, mas 84º por habitante, por causa de nossa baixa produtividade. Igualmente grave, nossa economia se concentra em bens agrícolas e minerais ou indústrias tradicionais, porque somos um país de baixa capacidade de inovação. Do ponto de vista social, carregamos a vergonha de sermos campeões em concentração de renda, temos formidáveis ilhas de riqueza e um trágico mar de pobreza. Chegamos ao nosso terceiro século divididos tão brutalmente que podemos nos considerar um sistema de apartação, um país onde a população está dividida e separada por “mediterrâneos invisíveis” intransponíveis. Somos um país integrado fisicamente e desintegrado socialmente. Por isso somos hoje, em parte, campeões de violência urbana com mais de 100 mil mortos por ano, 50 mil assassinatos e 45 mil vitimados por acidentes de trânsito. Na política, apesar de comemorarmos o aniversário com um sistema democrático e instituições funcionando, em nenhum outro momento tivemos uma classe política tão desacreditada. As promessas foram descumpridas, a corrupção se alastrou, os partidos se desfizeram, as finanças públicas foram quebradas, as estatais arrombadas, as corporações dividiram o país em republiquetas sem sentimento nacional. A sensação é de que o país entra no seu terceiro…

Arthur, nosso Aylan

Estas crianças não têm em comum bolas, boneca, balões de aniversário ou bancos de escola. Estão ligadas por balas, que bem podiam ser de doce, mas são de armas. Cada uma delas foi assinada, entre 2009 e 2017, entre 1 e 16 anos; e uma delas foi atingida antes mesmo de haver nascido. A lista não inclui aquelas que foram mortas pela maldade individual, por pais ou responsáveis e pedófilos. Elas foram vítimas da violência social. Felipe Faria Gomes, 16  - Géssica Guedes Pereira, 16  - Milena dos Santos Nascimento, 15  - Luiza Paula da Silveira Machado, 15  - Joice Souza de Oliveira Nascimento, 15  - Joice de Araújo Lima, 15  - Eloá Pimentel, 15  - Samira Pires Ribeiro, 14  - Rafael Pereira da Silva, 14  - Laryssa Silva Martins, 14  - Karine Chagas de Oliveira, 14  - João Vítor, 14  - Bianca Rocha Tavares, 14  - Maria Eduarda Alves da Conceição, 13  - Mariana Rocha de Souza, 13  - Larissa dos Santos Atanásio, 13  - Igor Moraes, 13  - Ana Carolina Pacheco da Silva, 13  - Luanderson Lima, 12  - Lorena Moreira, 12  - Ítalo Gabriel Souza, 12  - Vanessa Vitória dos Santos, 11  - Romário Batista da Silva, 11  - Monique Evelyn Florencio Silva, 11  - Matheus Garcia Cabral, 11  - Maria Eduarda da Silva Sardinha, 11  - Kerolly Alves Lopes, 11  - Iago Chagas Ribeiro, 11  - Álvaro Miguel Peres de Sousa, 11  - Kauã Machado Tavares Nieto, 10  - Josefa Mirian da Silva, 10  - Guilherme Vitorino da Silva, 10  - Giovanna Ramos Duarte, 10  - Fabrício do Nascimento Vieira, 10  - Eduardo de Jesus Ferreira, 10  - Bruna da Silva Ribeiro, 10  - Adrielly Vieira, 10  - Maria Letícia de Santana da Silva, 9  - Eric Meira de Oliveira, 9  - Adryan Joaquim Rolim da…

A Ocupação Necessária

O Rio e o Brasil estão comemorando mais uma vez a entrada de nossos soldados na luta contra a violência que tomou conta desta bela cidade. Diante da guerra civil em andamento, não há como ficar contra a decisão do governo federal, mas é preciso estar alerta aos seus riscos e limitações. Com as Forças Armadas (FFAA) nas ruas, a população carioca pode ter um fôlego de paz, mas sob o risco de envolver nossos soldados em mortes: a deles e a de bandidos nas ruas. As consequências destas mortes poderão ser muito graves para o necessário casamento entre os brasileiros e suas FFAA. Ao escolhermos o caminho do enfrentamento entre nossos soldados e a guerrilha-do-crime, adotamos o risco de soldados matarem brasileiros, inclusive com prováveis efeitos colaterais: eufemismo para dizer vítimas inocentes de balas perdidas atiradas por armas de um lado ou de outro. Somente neste ano de 2017, 92 policiais militares e mais de 500 civis, inclusive crianças, foram mortos na guerra entre bandidos e policiais. São estatísticas assustadoras: ainda mais grave se envolver nossos soldados. Igualmente grave são os limites desta opção. O Exército não pode ficar para sempre nas ruas do Rio, nem de outras cidades. No dia seguinte à saída dos militares, mesmo não sendo vista como derrota, os bandidos voltarão com espírito de vencedores. Sem falar no risco de sucesso da guerrilha-do-crime, se não diretamente no enfrentamento com nossos soldados, indiretamente pela disseminação da bandidagem em outras cidades. A solução provisória será um agravante. Ainda que tenham sucesso momentâneo, os soldados não construirão a paz permanente, que só viria se o governo federal ocupasse o Rio com professores bem preparados, dedicados, bem remunerados, em escolas bonitas e bem equipadas, todas com horário integral. Há anos, muitos dizem que se o Brasil não ocupar suas…