quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Educação

Comemoração Incompleta

Daqui a cinco anos, o Brasil ingressará no terceiro centenário de sua história como país independente. Neste 7 de setembro, aos 195 anos de nossa independência, é possível comemorar o que nossos antepassados conseguiram. Atravessamos quase duzentos anos consolidando um imenso território soberano e unificado por redes de transporte, de comunicações, de distribuição de energia, a economia brasileira está entre as maiores do mundo no valor do produto, passamos de 200 milhões de habitantes. Não há dúvida de que temos que comemorar os primeiros dois séculos. Mas se no lugar de olharmos para a história olharmos ao redor, a festa perde seu brilho. Comemoramos um elevado PIB, o oitavo do mundo, mas 84º por habitante, por causa de nossa baixa produtividade. Igualmente grave, nossa economia se concentra em bens agrícolas e minerais ou indústrias tradicionais, porque somos um país de baixa capacidade de inovação. Do ponto de vista social, carregamos a vergonha de sermos campeões em concentração de renda, temos formidáveis ilhas de riqueza e um trágico mar de pobreza. Chegamos ao nosso terceiro século divididos tão brutalmente que podemos nos considerar um sistema de apartação, um país onde a população está dividida e separada por “mediterrâneos invisíveis” intransponíveis. Somos um país integrado fisicamente e desintegrado socialmente. Por isso somos hoje, em parte, campeões de violência urbana com mais de 100 mil mortos por ano, 50 mil assassinatos e 45 mil vitimados por acidentes de trânsito. Na política, apesar de comemorarmos o aniversário com um sistema democrático e instituições funcionando, em nenhum outro momento tivemos uma classe política tão desacreditada. As promessas foram descumpridas, a corrupção se alastrou, os partidos se desfizeram, as finanças públicas foram quebradas, as estatais arrombadas, as corporações dividiram o país em republiquetas sem sentimento nacional. A sensação é de que o país entra no seu terceiro…

Arthur, nosso Aylan

Estas crianças não têm em comum bolas, boneca, balões de aniversário ou bancos de escola. Estão ligadas por balas, que bem podiam ser de doce, mas são de armas. Cada uma delas foi assinada, entre 2009 e 2017, entre 1 e 16 anos; e uma delas foi atingida antes mesmo de haver nascido. A lista não inclui aquelas que foram mortas pela maldade individual, por pais ou responsáveis e pedófilos. Elas foram vítimas da violência social. Felipe Faria Gomes, 16  - Géssica Guedes Pereira, 16  - Milena dos Santos Nascimento, 15  - Luiza Paula da Silveira Machado, 15  - Joice Souza de Oliveira Nascimento, 15  - Joice de Araújo Lima, 15  - Eloá Pimentel, 15  - Samira Pires Ribeiro, 14  - Rafael Pereira da Silva, 14  - Laryssa Silva Martins, 14  - Karine Chagas de Oliveira, 14  - João Vítor, 14  - Bianca Rocha Tavares, 14  - Maria Eduarda Alves da Conceição, 13  - Mariana Rocha de Souza, 13  - Larissa dos Santos Atanásio, 13  - Igor Moraes, 13  - Ana Carolina Pacheco da Silva, 13  - Luanderson Lima, 12  - Lorena Moreira, 12  - Ítalo Gabriel Souza, 12  - Vanessa Vitória dos Santos, 11  - Romário Batista da Silva, 11  - Monique Evelyn Florencio Silva, 11  - Matheus Garcia Cabral, 11  - Maria Eduarda da Silva Sardinha, 11  - Kerolly Alves Lopes, 11  - Iago Chagas Ribeiro, 11  - Álvaro Miguel Peres de Sousa, 11  - Kauã Machado Tavares Nieto, 10  - Josefa Mirian da Silva, 10  - Guilherme Vitorino da Silva, 10  - Giovanna Ramos Duarte, 10  - Fabrício do Nascimento Vieira, 10  - Eduardo de Jesus Ferreira, 10  - Bruna da Silva Ribeiro, 10  - Adrielly Vieira, 10  - Maria Letícia de Santana da Silva, 9  - Eric Meira de Oliveira, 9  - Adryan Joaquim Rolim da…

A Ocupação Necessária

O Rio e o Brasil estão comemorando mais uma vez a entrada de nossos soldados na luta contra a violência que tomou conta desta bela cidade. Diante da guerra civil em andamento, não há como ficar contra a decisão do governo federal, mas é preciso estar alerta aos seus riscos e limitações. Com as Forças Armadas (FFAA) nas ruas, a população carioca pode ter um fôlego de paz, mas sob o risco de envolver nossos soldados em mortes: a deles e a de bandidos nas ruas. As consequências destas mortes poderão ser muito graves para o necessário casamento entre os brasileiros e suas FFAA. Ao escolhermos o caminho do enfrentamento entre nossos soldados e a guerrilha-do-crime, adotamos o risco de soldados matarem brasileiros, inclusive com prováveis efeitos colaterais: eufemismo para dizer vítimas inocentes de balas perdidas atiradas por armas de um lado ou de outro. Somente neste ano de 2017, 92 policiais militares e mais de 500 civis, inclusive crianças, foram mortos na guerra entre bandidos e policiais. São estatísticas assustadoras: ainda mais grave se envolver nossos soldados. Igualmente grave são os limites desta opção. O Exército não pode ficar para sempre nas ruas do Rio, nem de outras cidades. No dia seguinte à saída dos militares, mesmo não sendo vista como derrota, os bandidos voltarão com espírito de vencedores. Sem falar no risco de sucesso da guerrilha-do-crime, se não diretamente no enfrentamento com nossos soldados, indiretamente pela disseminação da bandidagem em outras cidades. A solução provisória será um agravante. Ainda que tenham sucesso momentâneo, os soldados não construirão a paz permanente, que só viria se o governo federal ocupasse o Rio com professores bem preparados, dedicados, bem remunerados, em escolas bonitas e bem equipadas, todas com horário integral. Há anos, muitos dizem que se o Brasil não ocupar suas…

Brincar aprendendo ou aprender brincando?

Por Elisabete da Cruz*   Tudo na infância nos remete ao lúdico. Cantigas, personagens, cirandas, jogos, brincadeiras e uma infinidade de sensações inesquecíveis. É nela, na infância, que aprendemos as coisas mais importantes das nossas vidas. Mas só descobrimos isso tarde demais! A correria da vida moderna nos consome de compromissos e a infância passa pelos nossos olhos sem percebermos. Guardamos fotos, vídeos, histórias e sensações, e dela, extraímos o nosso melhor. Brincamos sozinhos e com o outro. Compartilhamos o lanche, o lápis e o brinquedo. Perdoamos e somos perdoados. Temos os amigos mais sinceros e com eles vivemos inúmeras aventuras. Não precisamos de nada mais que a nossa imaginação para construirmos castelos encantados, carros e monstros voadores. Inventamos, experimentamos e desenvolvemos habilidades não apenas motoras, mas emocionais. Representamos nosso presente e projetamos nosso futuro. Sonhamos em sermos astronautas, artistas, professores ou protetores dos animais; simples assim,  sem nos preocuparmos com uma profissão. Queremos apenas aproveitar cada minuto, até a completa exaustão do prazer mais puro que existe. Neste brincar descomprometido, carregamos  experiências para toda a nossa vida. Aprendemos por meio das brincadeiras não apenas as regras  mas como vamos conduzir nossas vidas em meio a inúmeras situações problemas. O aprendizado de forma integral precisa acontecer espontaneamente. Não necessita de tecnologia de última geração ou estruturas arquitetônicas faraônicas. Necessita de seres humanos mais preparados para esta nova geração. Se queremos adultos saudáveis e equilibrados,  deixemos nossas crianças brincarem mais, sem nunca nos esquecermos de nossa criança interior. Divirtam-se!!!   *Elisabete da Cruz é educadora, autora, empresária e produtora executiva na área de projetos culturais, educativos e de entretenimento, envolvendo públicos de todas as idades.

Consciência ecológica e desenvolvimento

Recentemente foi celebrado o Dia de Proteção às Florestas, comemorado anualmente em 17 de julho. O Brasil é conhecido no mundo como o país das florestas. Temos em nosso território brasileiro quase toda a Amazônia, maior floresta tropical do mundo, com a maior reserva genética, além de guardar um quinto da água potável disponível na terra. Calcula-se que sua biodiversidade representa um terço do planeta. Aqui também está a Mata Atlântica, os cerrados, áreas úmidas e ricos ambientes marinhos, entre outros. A preservação destes significa preservar a vida e o nosso futuro. Três grandes eventos sobre o meio ambiente aconteceram no Brasil - Conferência de Estocolmo em 1972; a Rio 92 e a Rio +20, em 2012. Os novos caminhos de desenvolvimento foram apontados por estas conferências, dando continuidade ao primeiro destes eventos. A partir de 1972, as pessoas passaram a saber que havia um limite para o crescimento econômico. Ficou claro que existe um risco real de que os recursos do planeta podem se esgotar e que o consumo ilimitado não pode satisfazer as necessidades humanas. Após a Rio 92, essa posição política ficou ainda mais clara. Passamos a relacionar economia, meio ambiente, desenvolvimento, sustentabilidade, demografia, entre outros temas. Infelizmente, a dificuldade política para se tratar desses assuntos é grande. Esses discursos não dão votos, a não ser de um pequeno grupo de ecologistas: mas quem está desempregado quer emprego; quem está com baixa renda, quer alta renda. O discurso de que não dá para ter automóveis e que eles não levam bem-estar é verdadeiro, mas não é eleitoralmente positivo. O grande desafio da governança internacional é conviver com as realidades nacionais, em que governos não pensam a longo prazo, mas em função das próximas eleições. Mais do que um marco jurídico, precisamos de um marco ético que limite…

Desigualdades

A Lei Áurea completou 129 anos no último dia 13 de maio. A partir desta data, a escravidão passou a ser uma aberração moral. No século XXI, a negação da educação não é só uma aberração moral como também uma estupidez técnica por impedir o aproveitamento do mais importante vetor econômico: o conhecimento de cada cidadão livre e educado. Ainda nos dias atuais – por incrível que pareça – é difícil despertar a consciência das pessoas para a imoralidade da educação desigual e para a estupidez da educação sem qualidade. Sem esse despertar moral, o Brasil continuará na escravidão moderna. Vivemos numa época em que a sociedade, o mundo e a economia dependem do conhecimento científico e tecnológico. Ao negar escola a uma criança, estamos negando um recurso fundamental para o país. Todos nós nos chocamos quando assistimos crianças em barcos tentando ir da África para o Mediterrâneo, saindo da Síria, da Turquia ou da própria África. Cada criança que sai da escola é como se caísse do barco, não morre biológica e fisicamente, mas perde a chance de se promover socialmente, porque a escola é a escada por onde ela ascende. A educação sem qualidade é um navio negreiro que leva milhões de crianças a um futuro pobre. Muitos governantes não conseguem visualizar que a criança que está fora de uma boa escola é como se fosse um escravo jogado ao mar. Não conseguem criar o sentimento de indignação quando a desigualdade no acesso educacional de cada criança acontece conforme a renda da família. Uma criança hoje tem o seu futuro definido pelo CEP onde mora e pelo CPF dos pais. É preciso quebrar essa desigualdade e garantir que no futuro a escola seja igual para todos: diversa nas características, com descentralização gerencial e com liberdade pedagógica dentro da…