Edição 30

01/06/2018

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domingo, 19 de agosto de 2018
Educação

O professor caminhoneiro

Há décadas o Brasil desvia recursos da educação, do saneamento, da saúde, da moradia e de outros setores sociais para fazer as estradas, pontes, viadutos, avenidas que a indústria automobilística exige. Esses sacrifícios foram feitos sem reclamação, porque a inflação permitia a ilusão de recursos públicos para todas as prioridades: as sociais e as automobilísticas. O resultado é sermos grandes produtores de carros e um dos últimos países em educação, saúde, distribuição de renda, com uma cultura que prioriza mais o tanque de combustível do que a qualidade da alimentação dos filhos. Graças aos caminhoneiros, estamos descobrindo que, para reduzir o preço do diesel, será necessário tirar dinheiro de outros gastos. Os caminhoneiros estão mostrando que um Real gasto em uma despesa não pode ser gasto simultaneamente em outra. Antes isso era possível graças ao estelionato da inflação. Descobrimos a aritmética; falta descobrir a política para escolher de onde retirar os recursos necessários, sem comprometer a educação e outros gastos sociais. A greve nos ensinou que o Brasil esgotou o modelo econômico e social pelo qual o progresso está no aumento do PIB, mesmo ao custo da depredação ecológica, concentração de renda, atraso educacional, científico e tecnológico. Mostrou também que foi um erro a opção pelo transporte rodoviário, no lugar do ferroviário, hidroviário ou por cabotagem; como foi erro priorizar o transporte urbano em carros privados, no lugar do coletivo. A paralisação foi suficiente para o governo decidir subsidiar o óleo diesel, sacrificando gastos em outros setores. Pena que os militantes continuem prisioneiros da época da reivindicação em vez de lutar para que o subsídio seja financiado sem sacrifício de gastos na educação e sem cair na ilusão inflacionária. Para tanto, bastaria lutar por reduzir apenas 0,6% dos gastos previstos para o Senado e a Câmara de Deputados.

Reflexão sobre o papel do educador

Por Elisabete da Cruz*   Ainda estamos engatinhando para o verdadeiro sentido da palavra educação Aprendemos a falar e aprendemos a silenciar. Aprendemos a multiplicar, mas também a dividir Aprendemos a sorrir e a chorar A se desculpar e a voltar a errar A se orgulhar e a ter orgulho! Aprendemos a descobrir todos os dias um modo de viver melhor. As datas são marcos importantes para refletirmos, para aprendermos a silenciar nossas mentes sobre o verdadeiro sentido da vida, do nosso papel na sociedade, de alguma injustiça ou algo que possa levar a conscientização para o maior número de pessoas! E o aprender está em tudo que faz sentido! Ele nos conecta, nos une, nos faz crescer! A educação é isso, é esta certeza inconstante e ao mesmo tempo pulsante. Ainda estamos aprisionados em paredes, lousas, giz e papel! Ainda temos pessoas infelizes ensinando o outro a receita da felicidade.  Ainda estamos engatinhando para o verdadeiro sentido da palavra educação! Que este dia seja uma pausa para enxergarmos nosso papel de educador! Educador pai, educador avô, educador porteiro, educador cantineiro... Afinal, educação se faz pelo exemplo, pelo processo de melhoria contínua, pelo amor! Parabéns para nós!   *Elisabete da Cruz é educadora, autora, empresária e produtora executiva na área de projetos culturais, educativos e de entretenimento, envolvendo públicos de todas as idades.

O outro lado dos problemas

Muitos brasileiros do centro sul têm aprendido a conviver mais recentemente com um problema que os nordestinos conhecem há séculos – a escassez de água. Em algumas regiões, quando os reservatórios enchem vem a falsa sensação de abundância. Mas as mudanças climáticas e aumento da população vão trazer de volta a questão. Esquecem que a oferta de água depende também da educação do cidadão que deve adotar padrão austero de consumo. O problema da água tem duas pontas: hídrica e educacional. Todos os demais problemas e desafios do Brasil passam por duas pontas. O emprego só será criado se a economia fizer investimentos, mas bom emprego exige educação do candidato. O aumento da riqueza nacional depende do crescimento econômico, mas sem educação a produtividade não sobe e a pobreza social continua. E se a educação não for de qualidade para todos, a concentração da renda perdura. O desemprego, a pobreza e a concentração de renda são problemas com duas pontas. A educação é uma delas. A violência precisa ser enfrentada com polícia, justiça e cadeia. Mas só com educação para todos será possível oferecer a mesma oportunidade aos brasileiros. A corrupção será combatida com o fim do foro privilegiado, mas o mundo mostra que a corrupção cai substancialmente nos países onde eleitores têm boa educação. Todo problema tem duas pontas e uma delas é a educação. Nisto está a dificuldade: o problema da educação também tem duas pontas. A ponta dos educadores para fazer a escola ideal, e a ponta educacionista para construir todas as escolas com qualidade igual. E para cuidarmos do problema da educação, eleitores e eleitos precisam antes ser educados. Este paradoxo – para educar o Brasil é preciso que o Brasil já esteja educado - só será resolvido quando for eleito um presidente-estadista, educador do povo,…

Prisioneiros do presente

A TV Globo está promovendo uma campanha com depoimentos de brasileiros sobre o Brasil que eles querem. Todos esperam honestidade, saúde, educação. O eleitor quer um presidente capaz de vencer a corrupção, a violência, as desigualdades. Mas ninguém indica o caminho para isso. Nem os eleitores, nem os pré-candidatos a presidente apresentam propostas de como realizar os desejos dos brasileiros. Há um excesso de desejos e de candidatos, mas escassez de propostas. A população brasileira quer justiça social, mas ainda não percebe que ela não se constrói sobre economia ineficiente. A realização dos sonhos exige sacrifícios: limitar gastos conforme a arrecadação, controlar o crescimento da produção para não ferir o equilíbrio ecológico. A economia do futuro depende do conhecimento técnico e científico capaz de aumentar a produtividade e a criatividade. E não há como distribuir renda que não existe, nem como criá-la sem educação de qualidade para todos. Parece difícil entender que o aumento da renda nacional depende da educação de alto nível para aumentar a produtividade. Sem isso, não tem como distribuir renda. Infelizmente, os brasileiros não acreditam na ideia de fazer nosso país campeão em educação e em produção intelectual, nem que esse é o caminho para fazer o Brasil que queremos. Os candidatos e os eleitores têm identificação nos sonhos, mas sem limitá-los aos recursos disponíveis, fiscais e naturais, prometem ações sem calcular seus custos, não dizem como serão financiados. Ambos parecem ter sonhos para o futuro, mas se mostram prisioneiros do presente.

Improvisações seculares

Joaquim Nabuco disse que a Abolição seria incompleta se os escravos não recebessem terra para trabalhar e se os filhos não tivessem escola para estudar. Não deram atenção. Cem anos depois, Darcy Ribeiro disse que se o Brasil não construísse escolas teria de construir cadeias no futuro. Junto com o governador Leonel Brizola, Darcy criou um sistema estadual de escolas: os CIEPs. Mas não houve continuidade. Em 1990, Fernando Collor levou a ideia para o resto do Brasil com os CIACs. Depois do impeachment, a federalização foi abortada. A sociedade brasileira continuou a marcha na pobreza, violência, desigualdade, improvisando soluções, sem perceber que o problema está na ausência de um sistema nacional de educação. O futuro do povo tem a cara de sua escola. Hoje, cariocas apoiam a intervenção federal na segurança do estado. Com a urgência de cuidar do fuzil, desprezamos o lápis. Preferimos continuar nas improvisações seculares: abolição, república, desenvolvimento, democracia e segurança sem educação. Este ano teremos eleições e os candidatos não parecem conscientes do problema, nem interessados em resolvê-lo. Partidos boicotam seus candidatos que defendem a educação porque não dá voto. Poucos votam em quem propõe enfrentar fuzil também com lápis. Por isso, não há ouvidos para o que disse Nabuco ou Darcy, nem para a ex-senadora Heloísa Helena quando, mais recentemente, falou: “se adotarmos uma geração de brasileiros, eles depois adotarão o Brasil”.

Kit sobrevivência

O esgotamento do atual modelo político, social e econômico e o processo de desagregação que contamina o país exigem mais do que um plano de desenvolvimento: demandam um mapa para a sobrevivência nacional. Fundamental para isso é a recuperação da credibilidade de políticos e juízes, sobretudo com mudança de comportamento, com o fim de mordomias e do foro privilegiado. Outro item é o enfretamento da guerra civil, ou incivil, que o país sofre. O próximo presidente deve definir estratégias para fechar a fábrica de criminalidade, cuidando da manutenção do edifício da assistência social, baseado em transferência de renda. É dever ainda se comprometer com a responsabilidade fiscal porque não há justiça social sem economia eficiente. Na primeira eleição direta, em 1989, o mapa visava a reconstrução da democracia. Candidatos sem expressão eleitoral deram contribuição ao debate buscando um novo futuro. Roberto Freire, com pouco mais de 1% dos votos, inspirou a juventude brasileira. Em 2006, disputando com grandes nomes e partidos, o PDT lançou candidato e passou uma mensagem maior do que os 2,5% dos votos que teve. Agora, mais do que nunca, o Brasil precisa de um candidato que ofereça um kit sobrevivência, mas os líderes políticos decidiram sucumbir à popularidade dos candidatos, preocupados com resultados eleitorais.