Edição 30

01/06/2018

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domingo, 19 de agosto de 2018

Conversa literária

Estou preparando uma apresentação para um evento sobre a influência das cartas e dos diários na poesia de Ana Cristina Cesar e tenho sentido falta de conversar. Talvez essa falta tenha me levado aos poemas da autora: em sua busca constante de interlocução, os poemas de Ana C. ecoam o tempo todo a voz do outro e também a sua ausência. O evento em questão é o congresso internacional da Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada), de 7 a 11 de agosto, com sede na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). A universidade está vivendo uma das maiores crises econômicas de sua história por ter estar sendo descartada como prioridade em um sistema governamental minado pela corrupção. Paradoxalmente, em paralelo a ações militantes por sua melhora e pagamento de salários, a UERJ cresce como cenário de diálogo sobre o papel da literatura no mundo atual. Múltiplos eventos têm sido promovidos pelo Instituto de Letras e, desde o evento de 2016, a Abralic se destaca como uma ocasião singular de discussão com estudiosos brasileiros e de diferentes países. No atual contexto digital estamos rodeados de facilitadores que nos possibilitam a conversa ininterrupta: o celular, o WhatsApp, o messenger, o e-mail. No entanto, a cada dia, o que cresce é o bilhete em sua forma contemporânea, convertido em mensagens de aplicativos, posts, mensagens de voz, enfim, uma série de recursos que inspiram o recado, não exatamente o diálogo. Faltam encontros, e boa parte do debate contemporâneo foi convertido em discordâncias ou elogios exagerados em sites ou redes sociais. Falta conversa na intimidade, falta conversa consequente que chegue a algum lugar na política brasileira consumida pelo casuísmo de uma democracia que nunca deslanchou para além dos interesses dos envolvidos na vida pública. Mas do que tenho sentido mesmo falta é de…

Sessão da tarde bela e profunda

Uma tarde de sábado, em casa, com esse inverno que parece finalmente dar as caras no balneário carioca, convida a um programa cinéfilo-televisivo debaixo das cobertas. O único porém é a luta contra a soneca: se fecharmos os olhos para a primeira piscada mais prolongada, acabou-se a oportunidade de nos abastecermos com essa quase interminável gama de possibilidades audiovisuais que temos hoje em dia à nossa disposição. Entre as várias estreias e novidades da minha companheira de fronhas e lençóis Netflix, pincei três filmes que vou indicar na coluna. Foi de uma vez só que as assisti, numa Sessão da Tarde bela, profunda e comovente. Vamos a eles!   Laerte-se: Já estava há um tempo me devendo assistir a esse documentário sobre a transformação – ou melhor, o deixar-se vir à tona – do cartunista Laerte Coutinho. Mente e mãos afiadas, Laerte é um dos meus grandes ídolos dos quadrinhos nacionais. E minha admiração alcançou grau máximo quando ele assumiu sua verdadeira persona: a Laerte. Laerte é mulher, é UMA cartunista, UMA artista. Laerte é ELA. E é o máximo! E é uma das minhas grandes ‘ídolas’ dos quadrinhos nacionais. Eu não imaginava que Laerte pudesse ser transgênero mas assim que a Laerte saiu da penumbra, do limbo sombrio onde tanto tempo vivera para ganhar os holofotes de uma vida mais colorida, cavei aqui o que tinha de trabalhos da cartunista, pesquisei mais ali. Lembrava de um personagem dela que se travestia, que se montava, se tornava uma mulher plena. Era o Hugo. Isso! Ali, na figura daquele jovem que se tornava uma fêmea poderosa – muitas vezes às escondidas, outras às claras –, a Muriel, já pulsava o que ela ainda não trouxera ao mundo real. Hugo representava O Laerte e Muriel, A Laerte. Hoje, a transição de um…

Desigualdades

A Lei Áurea completou 129 anos no último dia 13 de maio. A partir desta data, a escravidão passou a ser uma aberração moral. No século XXI, a negação da educação não é só uma aberração moral como também uma estupidez técnica por impedir o aproveitamento do mais importante vetor econômico: o conhecimento de cada cidadão livre e educado. Ainda nos dias atuais – por incrível que pareça – é difícil despertar a consciência das pessoas para a imoralidade da educação desigual e para a estupidez da educação sem qualidade. Sem esse despertar moral, o Brasil continuará na escravidão moderna. Vivemos numa época em que a sociedade, o mundo e a economia dependem do conhecimento científico e tecnológico. Ao negar escola a uma criança, estamos negando um recurso fundamental para o país. Todos nós nos chocamos quando assistimos crianças em barcos tentando ir da África para o Mediterrâneo, saindo da Síria, da Turquia ou da própria África. Cada criança que sai da escola é como se caísse do barco, não morre biológica e fisicamente, mas perde a chance de se promover socialmente, porque a escola é a escada por onde ela ascende. A educação sem qualidade é um navio negreiro que leva milhões de crianças a um futuro pobre. Muitos governantes não conseguem visualizar que a criança que está fora de uma boa escola é como se fosse um escravo jogado ao mar. Não conseguem criar o sentimento de indignação quando a desigualdade no acesso educacional de cada criança acontece conforme a renda da família. Uma criança hoje tem o seu futuro definido pelo CEP onde mora e pelo CPF dos pais. É preciso quebrar essa desigualdade e garantir que no futuro a escola seja igual para todos: diversa nas características, com descentralização gerencial e com liberdade pedagógica dentro da…

Mais do mesmo

Quis o destino que Temer repetisse Dilma e, de certa forma, o Collor também! Se por um lado agarra-se ao cargo desesperadamente como sua antecessora, por outro ataca contundentemente outros poderes da república, como se vítima fosse, no melhor estilo do Caçador de Marajás! Parece estar caminhando para a mesma situação que levou à interrupção dos respectivos mandatos presidenciais. A face mais trágica de toda essa enorme crise política é, sem dúvida, a situação em que se encontra o país. Crise fiscal com possibilidade de recrudescimento, inflação em baixa, mas muito influenciada pela profunda recessão instalada, sem perspectivas claras de que poderá ser revertida, desemprego crônico, alimentado pela depressão da economia e retração por parte do setor privado diante das turbulências, incertezas e reformas que ninguém mais acredita que se concluam com algo que possa ser chamado de sério. Se forem concluídas, as reformas podem ficar descaracterizadas e servirem apenas para se evitar que a economia piore ainda mais. Um novo governo, não se sabe quem e quando, deverá enfrentar mais uma vez a imperiosa necessidade de reformar a previdência, mas quem pode garantir algo agora? O fato é que este governo, que possui 7% de aprovação, prepara-se para enfrentar a batalha dos votos na Câmara. Sabemos que sua base lhe permite, com folga, a rejeição da autorização para ser julgado no STF. Mas quem pode garantir que esta base ainda é sólida? Quem está pensando em 2018 estaria confortável unindo-se a Temer? E quem continua lutando para barrar a Lava-jato? Acha que vale a pena o desgaste de participar do combate junto ao presidente? Fato é que, na esteira das negociações “políticas” para salvar seu mandato, Temer pode optar por deflagrar um pacote de bondades que, diante da situação das contas públicas, seria um verdadeiro pacotão de maldades para…

Inteligência Artificial (IA) – Uma nova sociedade se desenha

Assim como os temas abordados anteriormente aqui no O Quinze (Transformação Digital, Cloud e Bigdata), Inteligência Artificial (IA), ou em Inglês, que é o mais conhecido, Artificial Intelligence (AI), também tem sido muito badalado ultimamente. Não por acaso, mas essas tecnologias estão intimamente interligadas, o que indica uma forte correlação entre elas. Assim como os outros conceitos, a AI (usarei a sigla em Inglês por questão de conformidade com o mais usual) também não surgiu agora, existem relatos da década de 1940 onde cientistas já trabalhavam no tema, na incansável busca por decifrar os mistérios do cérebro humano. E também, assim como os outros temas já mencionados, AI ganha importância na medida em que o desenvolvimento tecnológico passa a viabilizar as necessidades intrínsecas do assunto. O que é AI e quais são os principais conceitos? Podemos dizer de uma maneira simples que AI é a forma de fazer uma máquina “funcionar” como um humano, ou seja, executar atividades de maneira autônoma e inteligente. Inteligente no sentido de ser capaz de interpretar comandos de voz, identificar o contexto através da percepção visual e ainda tomar decisão para algo que não foi programado especificamente. Aliás, no AI a ideia não são algoritmos muito extensos, mas que sejam capazes de prover, com confiabilidade e velocidade, decisões corretas diante de situações não previstas. A máquina aprende e na próxima vez saberá como agir, mais rápida e assertivamente. Então, vamos tentar entender um pouco mais de AI e seus impactos na nossa vida. Fala-se na 4ª revolução tecnológica e que vai impactar empresas, empregos e a sua vida. Seria o fim da raça humana? Seremos dominados por robôs? Teremos nossos cérebros controlados tipo nos filmes Matrix e Avatar? Minha resposta é o clássico “It depends!”. Sim, depende de muitas variáveis. Teorias temos para todos os…