Edição 29

15/05/2018

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terça-feira, 22 de maio de 2018

Um show para ver de olhos fechados

Paulinho da Viola e Marisa Monte cantando juntos no mesmo palco não é um show, é uma experiência sensorial particular. Ali o público não se mexe na cadeira, mas se transporta para vários outros lugares. Não tem “tira o pé do chão” nem dança frenética. Tudo é minimalista, no palco e fora dele. Os gestos são lentos, tímidos. A respiração é pausada. O tempo passa em outra rotação para quem está na bolha. Os segundos duram horas. As horas passam num piscar de olhos. O relógio gira em sentido anti-horário. O ponteiro se move em zigue-zague. A plateia em nada se parece com o que se vê nos outros shows. Há respeito. Solenidade. Cerimônia. Mas é uma reverência íntima, sem não-me-toques, rapapés ou mesuras. Afetação zero. É aquele silêncio tipo “deixa o Picasso terminar o quadro dele” ou “peraí que Beethoven tá escrevendo o último movimento da sinfonia, beleza”? Não cabe nem o “Fora, Temer” comum a nove em dez shows hoje em dia. Ali dentro não tem Temer, Gilmar ou Joesley. É outra dimensão, mermão. Nada me aborrece. Até para cantar junto tem uma certa inibição. É uma forma de, educadamente, não competir com a emissão quase sussurrada de Paulinho. São os próprios ouvidos que pedem para deixar o caminho livre pra voz que vem do palco. Marisa faz soar seu canto de sereia, hipnotizando um a um, como marinheiros em alto-mar, fisgados pelo som e atraídos por aquele contra-canto. É como se Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Inaê, Janaína, Iemanjá e todas as demais rainhas do mar estivessem à nossa frente, espalhando melodia pelo ar. E a multidão entra em transe, deslizando pelas águas daquele rio que passou em sua vida. A cada canção, uma nova viagem. Com “Esta melodia”, Paulinho relembra a quadra da Portela entoando os…

imagem: da autora. direitos reservados.

Ventre-terra e suas deusas

“Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de picumã. Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal.” Cora Coralina - Todas as vidas (1965)   Na última lua cheia, fui em uma benção do útero na Ilha de Paquetá. 23 mulheres reunidas, entre mais de 150.000 que pelo mundo, naquela mesma hora, se reuniam para que a mesma bênção acontecesse. Fui com uma amiga, e outras três, conectadas exatamente na mesma missão, estavam ora sós, ora em outros grupos parecidos com o meu. Na chegada, três jarras: leite, hibisco, água. Cada uma de nós levava de casa duas taças, uma boneca, um objeto, uma vela, frutas. Uma das taças receberia a vela, do fogo que gera a vida, na outra um dos três líquidos que escolheríamos: leite para quem ovula, hibisco a quem menstrua, água a todas as demais. Jorrei o hibisco na minha taça, acendi a vela azul, sentei no canto, segurei a boneca. Deixei manga e tangerina na taça das frutas. Sorri, silenciei, fechei os olhos. A viagem conduzida levou ao fundo da terra, à Lua bolachuda no céu, ao passado longínquo, ao presente de honrar ser útero, alimento, mulher.   BABA YAGA Dizem que Baba Yaga é uma mulher que voa e que mora numa casa discreta, na floresta. É bruxa, estranha, ambígua, deusa. É mãe e feroz, devora os errantes que passam pela floresta perdidos, ou os que ousam entrar em sua casa, onde a fechadura da porta é feita de dentes vorazes. Ela cuida da floresta e devorando os errantes e invasores, transforma-os em adubo, fertiliza, nutre a terra e faz o ciclo seguir. É mãe e morte, é terra e força, alimento e mulher. Baba Yaga, figura…

Marlene Sativa, a rainha do barzinho

Marlene Sativa era a rainha do barzinho. Cantava na noite há anos, com relativo sucesso. Nunca havia gravado um disco, não aparecia nos programas de TV nem tocava nas rádios. Mas a noite do Rio de Janeiro inteiro a conhecia. Ganhava dinheiro soltando a voz em mais de uma casa por noite. E era tratada como estrela pelos donos dos estabelecimentos. Sativa era sinônimo de bom faturamento, de clientela satisfeita, de uma jornada inesquecível. Era a voz da noite carioca. Mas havia um problema. Marlene Sativa amalgamou sua carreira da forma como pedem os barzinhos: num estilo cool, cantando doce, suave, quase daquele jeito “não quero incomodar o seu jantar”. Canções melodiosas, letras inocentes, a ideia era ser o pano de fundo da noite dos casais, nunca o prato principal. Era a Marisa Monte da noitada, a Maria Gadú dos botequins, a Adriana Calcanhotto do happy hour, a Zizi Possi das baladas. Voz fina, quase sussurrada, aquela que quando chega aos tímpanos pede desculpas e entra bem de-va-gar-zi-nho. Terminava os shows sem derramar uma gota de suor, sem forçar as cordas vocais, novinha em folha, pronta pra outra. Mas esse não era seu desejo artístico. Se pudesse, sua persona no palco seria outra. O que ela queria mesmo era incorporar a loba, feito Alcione. Dar a risada da Fafá de Belém. Mexer os quadris como a Ângela Ro Ro. Coçar o saco, mostrar os peitos e cuspir no chão tipo a Cássia Eller. Gritar barbaridades pro “ex-my-love”, que nem a Gaby Amarantos. Sativa, no fundo, era uma artista visceral. Aquele fio de voz estilo Nara Leão na verdade escondia um trovão à la Clementina de Jesus. E foi aí que chegou a fatídica noite. Marlene Sativa não era de beber. Fazia de tudo para poupar a voz. Durante o show,…

Nosso futuro promissor

Crianças. Elas representam o futuro. O seu. O meu. O futuro de todos nós. Futebol. Paixão nacional do povo brasileiro. A minha paixão. A sua também. A nossa. E quando juntamos crianças com futebol? Dá samba! Senhoras e senhores, quero apresentar a vocês a Copa Dente de Leite, uma competição para crianças de até 10 anos. A ideia partiu do empresário Marcelo Pires, que organiza cada detalhe com muita competência e não abre mão de narrar todas as partidas. Este, sim, joga nas 11! Mas, se você pensa que essa Copa é somente diversão para a criançada, está muito enganado. E sabe por quê? A resposta é simples: essas crianças amam o Neymar, amam o Messi, o Cristiano Ronaldo e sonham em ser um deles quando crescerem. Ou talvez nem sonhem tanto com isso, mas certamente seus pais sonham. Os pais querem. Os pais lutam para ver seus filhos nos melhores clubes para serem um Neymar, um Messi, um Cristiano Ronaldo. Os pais sempre querem o melhor para os filhos. E grande parte dos filhos já nasce amando futebol. Nada melhor do que fazer o que se ama! E fazer o que se ama sem a responsabilidade de um adulto, então, melhor ainda! Certo? Mais ou menos, pois as crianças da Copa Dente de Leite não jogam para perder. Elas levam tudo muito a sério! E eu posso afirmar isso, pois tenho a alegria de fazer as reportagens no campo com essa molecada. Acompanho todas as equipes e todos os jogos de perto. Eu me surpreendo e me emociono com a tal da 'responsabilidade' das crianças (entre aspas, é claro!). Uma das regras mais interessantes dessa Copa é que o treinador pode fazer quantas substituições quiser e, com isso, consegue dar chance para todas as crianças participarem das partidas. Também…

Por um mundo sem barreiras

A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de construir um muro ao longo de toda a fronteira entre os Estados Unidos e o México terá muitos efeitos negativos para os povos dos países das três Américas. Na obra "Development as Freedom" (Desenvolvimento como Liberdade), o economista Amartya Sen, ganhador do prêmio Nobel, enfatiza duas importantes contribuições de Adam Smith e Karl Marx ao mostrar como a liberdade é vital para o desenvolvimento - e que devemos sempre avaliar o quanto o desenvolvimento contribuiu para ampliar a liberdade do povo. Ao ressaltar como o mecanismo de mercado contribuiu para o crescimento econômico, Adam Smith afirmou que a liberdade de comércio e de troca é parte essencial das liberdades básicas que as pessoas avaliam como muito valiosas. Limitar a liberdade de participação no mercado de trabalho é uma das formas de manter a sujeição ao trabalho quase escravo. Adam Smith foi um crítico severo das Leis dos Pobres – da Inglaterra do Século XVIII - devido às limitações do trabalhador pobre para encontrar empregos fora de sua área paroquial. Embora Karl Marx fosse um grande crítico do capitalismo, soube reconhecer alguns de seus aspectos. Assim, no livro “O Capital”, ele caracterizou a Guerra Civil Americana como o "grande evento da história contemporânea", já que acabou com a escravidão. Também relatou a importância da liberdade do contrato de trabalho em oposição à escravidão. Os Estados Unidos são muito conhecidos por sua tradicional defesa da liberdade de comércio, de capital, bens e serviços em todo o mundo. Da mesma forma, e ainda mais importante: os norte-americanos, historicamente, são a favor da livre circulação de seres humanos. Em 1987, o presidente Ronald Reagan pediu ao então líder da União Soviética, Mikhail Gorbachev, que destruísse o Muro de Berlim, que separou por tanto tempo…