Edição 29

15/05/2018

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terça-feira, 22 de maio de 2018

Um mês é pouco para recordar o livro infantil

Ler um livro é viajar no tempo, no espaço, e em experiências diversas. Os livros são um produto cultural. De formas e cores variadas e dispondo de materiais diversos, eles são a tessitura de histórias narradas por seres humanos. Uma transmissão que se dava pela oralidade e que adquiriu um desfrute individualizado. Em suas páginas estão exemplos, emoções, sentimentos, conhecimentos, sabedoria, enfim, a trajetória existencial, ética e moral de indivíduos. Quanto mais cedo o acesso das crianças aos livros melhor a apreensão de valores nobres e da eclosão de criatividade. Nesse mês de abril celebra-se o Dia Internacional e Nacional do Livro Infantil. Esta última data decorre da celebração dos 135 anos do nascimento do grande escritor e editor brasileiro de livros infantis, Monteiro Lobato, em 18 de abril. Lobato é autor de uma célebre afirmação: “um país se faz com homens e livros”. Mas infelizmente os homens do futuro são hoje crianças com mais tablets e celulares, nas mãos, do que livros propriamente ditos. Ouvi de uma diretora de escola de educação infantil, de porte médio, que uma turminha de crianças de dois anos não sabia passar as páginas dos livros que lhes era disponibilizado. Elas tentavam passar as páginas correndo o dedo no papel como se fosse um tablet ou celular. Esse testemunho me inspirou na escrita desse artigo, no intuito de alertar que a literatura infantil é coisa muito séria. E que se temos a pretensão de ter um país com homens sábios, estes devem colocar seus olhos a percorrer as linhas tecidas pela inspiração de escritores ou delineadas por ilustradores, e as mãos virando as páginas de um livro, isso como um hábito que não pode ser descartado, mas estimulado desde a mais tenra idade. Banida durante muito tempo do campo dos estudos literários, a literatura…

Novos estadistas para um novo Brasil

‘’Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.’’ Martin Niemoller   O mais importante porta-voz da resistência protestante ao Nazismo na Alemanha foi o pastor luterano alemão e oficial naval Martin Niemoller(1892-1984), que escreveu um dos poemas mais célebres intitulado “E não sobrou ninguém”. Sua ordenação foi em 1931 na Igreja de Santa Ana em Dahlen, subúrbio de Berlim. Em 1966, foi condecorado com Prêmio Lênin da Paz e reconhecido como um dos mais proeminentes líderes que resistiram aos abusos e controles estatais nazistas durante o regime nacionalista de Adolf Hitler. Creio que em nossos dias, a população brasileira enfrenta também uma opressão sistêmica e gravíssimos abusos vindos de um sistema corrupto comandado por uma oligarquia apodrecida nas diferentes esferas do poder público com estreitos laços com o setor privado que, por sua vez, alimenta o “câncer” da corrupção. É fato que essa mesma oligarquia corrompida composta de agentes políticos, agentes públicos e empresários vem se perpetuando e agora desejam impor pesadas e duras reformas sob o cidadão e trabalhador brasileiro, tais como as Reformas Previdenciárias e Trabalhistas que estão tramitando no Congresso Nacional. Um abuso aviltante. É importante ressaltar que um estudo divulgado esse ano pela entidade Transparência Internacional aponta que o Brasil fechou o ano de 2016 em 79º lugar entre 176 países em ranking sobre a percepção de corrupção no mundo. Além do Brasil, estão empatados em 79º lugar Bielorrússia, China e Índia. O ranking leva em consideração a percepção que a…

Precisamos falar sobre…

Precisamos falar sobre... uma série. Sim, mais uma, mas não “mais uma”. Essa estreou recentemente causando muito burburinho nas mídias sociais. A ela está sendo atribuída a possibilidade de causar reações adversas como o estímulo ao suicídio e que, por essa razão, deve ser evitada. Outras pessoas defendem que o seriado deva ser assistido justamente porque aborda temas sensíveis: além do suicídio, fala-se de bullying, estupro e toda sorte de assédios. Estamos falando de “13 reasons why”, que estreou esses dias na Netflix. Inspirado no livro de mesmo nome, conta a história de Hannah Baker, estudante recém-chegada numa escola de Ensino Médio americano, que se mata depois de um período sofrido no ambiente escolar. Antes do fim, porém, deixou gravados depoimentos em fitas K-7 nas quais explicava as possíveis causas e causadores que a fizeram chegar a essa trágica decisão. Precisamos falar sobre... suicídio. É um tema muito sensível mas extremamente importante e, particularmente, creio que deva ser discutido. Os índices têm aumentado nos últimos anos em vários países. Nos Estados Unidos, é o segundo motivo de morte entre os jovens. Falar de suicídio é polêmico porque estudos e especialistas defendem que a mera menção e divulgação do ato pode estimular pessoas a fazer a mesma coisa. Mas acredito que trazer o tema à luz pode auxiliar muito e dar voz a um grande número de pessoas que sente o que Hannah sentiu: a de que não existe saída. A questão não é naturalizar o ato, mas mostrar que essas coisas acontecem, tirar o véu de tabu que encobre o suicídio e, mais importante, que é possível detectar e, com essa possibilidade, tratar e evitar que pessoas se matem. Hannah é uma jovem sensível e muito vulnerável aos estímulos externos. A opinião dos outros importa, importa tanto a ponto de…

Da beleza de moer o nosso próprio café

Este texto poderia ser uma carta de amor. Poderia também ser uma despedida, um até mais ver. Poderia ser um memorial ou um poema, mas não. Este texto não é sobre nós mas sobre o que fica além de nós. Sobre como é que de encontros nascem novas formas de reencontro com o mundo, com a simplicidade, e no nosso caso, sempre com ela, a comida. Pulando a parte de quando nos conhecemos, vamos logo para o segundo dia. Fomos almoçar, e sem muito assunto, ainda de olhos vidrados de encantamento, disseste que precisavas comprar café. Levaste-me para um shopping center (que logo descobriste que era um dos piores lugares para me levar) e fomos naquela franquia americana da logo da sereia, comprar café. Tu dizias com orgulho que compravas sempre o grão, do mais forte e torrado, e que moías todas as manhãs. Que aquele era o melhor café, e a tua fala trazia uma propriedade que me fixava ali, curiosa. Dizemos muitas coisas quando conhecemos alguém, não é mesmo? “Só como sorvete de pistache; Não abro mão de suco de caixinha; Deixo de fumar em qualquer momento; Não durmo em camping; Para toda a vida; Para nunca mais; Queijo só daquela marca; Café só do mais torrado, só da logo da sereia.” Tudo se reavalia depois, porque é da troca e da convivência que nasce a sabedoria. Nascem dificuldades também, mas este texto é sobre café, então voltemos ao tema. Comprado o grão abriste o pacote, cheiramos, puxaste o moedor do armário, moeste o grão, e a cozinha foi invadida por aquele cheiro maravilhoso. Fizeste o café na prensa francesa e eu achei tudo o máximo. Não te contei no dia que era um ritual que eu também já trazia porque queria provar como se fosse tudo novo, sem memória, como se fosse uma primeira vez. Desde então se deram centenas de rituais semelhantes. Mas tudo…

A Política e a Economia

Política e Economia andam sempre próximas uma da outra. Constituem mundos diferentes, porém há um jogo de interferências mútuas. Costuma-se afirmar que uma influencia a outra. Nosso país entrou numa crise política das grandes e, paralelamente, a economia desandou. As políticas praticadas nos últimos anos privilegiaram um discurso populista, ações equivocadas onde decisões políticas prejudicaram, como nunca, a economia. A consequência aí está: crise fiscal, inflação acima da meta, desemprego elevado, crise política, impeachment, desorganização das contas públicas, corrupção e a troca de governo com o Vice assumindo o cargo de Presidente. Mas o novo mandatário, com DNA do esquema anterior, do qual participou, está com baixo índice de aprovação e vinculado a um partido, o PMDB, que, juntamente com o PT, foi também responsável por tudo que aconteceu. Não por acaso, são os dois partidos com mais citações nos esquemas de corrupção que se alastraram pelo país. O novo governo, talvez por ter ciência de sua fraqueza, procurou ser o fiador de muitas reformas que o país necessita para corrigir os rumos. Obteve um sucesso razoável ao formar uma base de sustentação forte o suficiente para aprovação das reformas. Mas naquela mais importante, a da Previdência, começou de forma errada, fez algumas idas e vindas, negociou e cedeu, e parece estar perto de colocar um texto, ainda que remendado e sem contemplar alguns aspectos importantes, para votação no Congresso. Por outro lado, parece ainda estar dando topadas na política fiscal. Repentinamente, tudo que se especulava em torno do grande sistema de corrupção instalado no país começa a tomar forma, abatendo moralmente parte substancial de nossos políticos, embora as consequências no âmbito da justiça demorem para se concretizar. Mas esse é o tipo de coisa que atinge de imediato a economia. O dólar sobe, a bolsa cai, a turbulência é…