Edição 19

15/11/2017

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quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Economia

O cenário político-econômico e as mazelas do país

A recuperação econômica já é perceptível na arrecadação via receita de tributos, ratificando a tendência de uma retomada consistente. Na esteira da preservação do mandato do atual presidente, há um esforço para que se viabilize uma reforma reduzida da previdência, para se gerar um alívio passageiro do caixa do governo, bem como para esconder que este governo acabou. E isso tudo à beira de um ano eleitoral. Mais uma vez, agora por imposição das dificuldades políticas, procura-se fazer uma reforma previdenciária que não resolve o assunto. A situação da previdência não diz respeito somente à solvência do sistema em futuro que se avizinha, mas também às desigualdades existentes. O déficit com o pagamento de aposentadorias de um milhão de servidores públicos, desde 2015, supera aquele registrado para 33 milhões de aposentados da iniciativa privada. Isto é fato, não é crítica a ninguém! Muito foi feito errado nesse campo. O tempo de uma reforma tipo “agora quem ingressar no sistema (todos) será assim” passou, e é bom que se diga que nem a proposta formulada inicialmente era igualitária. De qualquer forma, se aprovada essa minirreforma, algum governo eleito a partir de 2018 terá que enfrentar o problema mais uma vez. É bom que se diga, não há sustentabilidade do crescimento se não avançarem as reformas. Por outro lado, os acertos na economia não justificam os erros que o governo vem cometendo, a começar pelas ações para salvar o mandato do presidente. Perdoou 60% de multas ambientais das empresas, liberou muito dinheiro para a construção de pequenas obras nos currais eleitorais dos deputados, assistiu sem reação a perdas de receitas no novo Refis, reduziu a área ambiental da Floresta Nacional de Jamanxin e, a mais criticada de todas, baixou decreto que muda o conceito de trabalho escravo. Hoje, a imagem do Brasil…

E a justiça?

O presidente Temer livrou-se de responder pela segunda denúncia do MPF, agora acompanhado de dois de seus ministros que foram arrolados para responderem, todos, por formação de quadrilha. Custou muito caro ao país a preservação do mandato presidencial. Embora a economia continue dando sinais de melhora, as benesses concedidas aos senhores parlamentares servirão para que consigam uma renovação dos respectivos mandatos, afinal estamos à beira de um ano eleitoral. Pensar no país deveria ser prioridade, mas a preservação do poder da turminha é fundamental. Fosse isso apenas, até estaria bom. Pior é ver o que está sendo feito para prejudicar o combate ao trabalho escravo e mandar às favas o bom senso na área ambiental. Nosso país não tem protagonismo em nenhuma agenda internacional, ao contrário, estamos, de um modo geral, mais próximos à chacota no que concerne ao nosso comportamento perante o mundo! E este é um ponto crucial. O Brasil, por toda riqueza e diversidade existente no seu patrimônio ambiental, deveria assumir uma posição de liderança internacional nas políticas ambientais e acordos entre as nações. Por aqui, livra-se o presidente e, por que não, o senador Aécio, que lhe dá apoio, das ações da justiça. Entre as idas e vindas das denúncias do MPF, ações da Lava-Jato e ampla cobertura da mídia, nada acontece de concreto. Sabe-se que há um rito a ser seguido por nossa justiça, que a torna lenta e beneficia os infratores abastados e, mais ainda, aqueles detentores do famigerado foro privilegiado. Mas o povo não consegue aceitar isso, principalmente quando se trata de dar um pouco de alento a quem tanto pena com as mazelas do nosso pobre país. Vejam só, os funcionários do STF, denominados “capinhas”, recebem R$ 12 mil dos contribuintes para puxar a cadeira para suas Excelências sentarem. Injusto mencionar que…

A ação política sob a ótica do discurso populista

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, declarou recentemente que o momento é propício para reformas estruturais nas economias globais, aproveitando a melhoria nas previsões econômicas mundiais para o biênio 2017/2018, visando recuperar os danos provocados pela crise de 2008. Para ela, os países devem reformar para aumentar a produtividade, melhorar a governança e reduzir riscos futuros. Ela está certa, é justamente no momento em que as economias se recuperam é que se deve corrigir as distorções que impedem o desenvolvimento das nações. E foi exatamente o que os governos do PT não fizeram. Não se pode esperar mesmo que governos populistas promovam um efetivo desenvolvimento social e econômico. Como pano de fundo de um discurso demagógico e recheado de falsas verdades, aproveitaram a estabilidade econômica viabilizada pelo Plano Real, por sinal muito combatido pelo PT, bem como uma conjuntura internacional favorável, com valorização expressiva dos preços das commodities, em especial as exportadas pelo Brasil, para realizar uma gastança festiva, gerando algum benefício para o povo, superdimensionado num discurso de que eliminou a fome, que o povo ascendeu a um nível de consumo maravilhoso e que todos tinham emprego. No mundo real, abdicou de receitas importantes reduzindo impostos, para o setor automotivo, por exemplo, tudo com base no discurso de geração de empregos; angariou companheiros nas grandes empreiteiras e empresas do setor de alimentação. Ao tempo em que o discurso execrava as elites que sempre “sugaram a economia do país”, distribuiu benesses a essas mesmas elites via BNDES, MPs de seu interesse e outras moedas de troca por apoio político e financeiro, como se observou nesses diversos anos de Lava-Jato! Criou-se um discurso de Brasil grande: vamos então promover uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, construir muitos estádios e grandes obras olímpicas, vamos fazer o dinheiro circular, dar empregos (discurso neles),…

Sem rumo na política e esperança na economia

A crise permanece e o presidente Temer atinge o pior nível de popularidade, somente 3% consideram que seu governo é bom ou ótimo. Há uma concepção, muito considerada para se avaliar o sucesso de um governante, que define seu desempenho pela declaração “se a economia vai bem o governo também”. Ora, se olharmos para o que vem acontecendo no ambiente econômico, podemos dizer que estamos melhorando após o desastre do governo anterior. Embora ainda tenhamos muito a fazer, é inegável que já atingimos um grau de melhora em que não acreditávamos ser possível tão rapidamente. É claro que persistem alguns problemas, especialmente na área fiscal e do emprego, mas já há indícios fortes de reversão deste último. Quando procuramos explicar o sucesso de algum governante, normalmente aparece a sentença “é a economia”, então como explicar a forte rejeição ao atual presidente? Não há como fugir ao óbvio, fica claro que não se trata apenas da economia, tanto é que a avaliação da forma de governar é melhor, embora seja baixa também. O presidente reconhece que nunca foi popular, tanto é que se definiu como reformista, ou seja, o que não se importa muito com a popularidade, algo inatingível por quem, após tantos anos de vida pública, nunca foi um campeão de votos ou amado pelo povo. A isto, somem-se os recentes escândalos envolvendo seu nome nas delações da J&F que desaguaram em duas denúncias pelo Ministério Público Federal. O sucesso dos leilões de privatização de quatro usinas da Cemig e dos blocos de petróleo e gás demonstra que o país ainda atrai grandes investidores e o governo obtém uma importante melhora de arrecadação, ajudando no cumprimento da meta fiscal e liberando gastos para os Ministérios. Por outro lado, esperava-se obter um ganho substancial através do Refis, mas nossos políticos resolveram…

Imobilidade urbana, econômica e social no Brasil

Por Guilherme Vianna   Um debate corriqueiro em rodas de discussão é o tradeoff  entre crescimento econômico e igualdade social (entende-se que, ao se optar por elevar a produção de recursos, necessariamente sua distribuição será menos igualitária, e vice-versa). Esse pensamento possui uma aparente contradição, pois vivemos em um sistema socioeconômico baseado em trocas, que só ocorrem quando os dois lados a aceitam – assim, crescimento e distribuição deveriam andar juntos. Entretanto, essa contradição passa a desaparecer no momento em que quem pode utiliza seu maior poder de barganha para obter trocas mais favoráveis; e nos casos em que trocas bilaterais atingem terceiros. Não costumo omitir minha opinião, mas como não pretendo perder amizades nem ser xingado hoje, vou sutilmente caminhar com o assunto em outra direção. Podemos ilustrar como decisões individuais podem afetar outros através de dois exemplos: 1) quando uma pessoa decide usar carro ao invés de transporte público; e 2) quando um indivíduo decide não aceitar uma proposta para abrir mão de sua residência em um local onde há o interesse de construir uma via para circulação de veículos motorizados – um caso de desapropriação. É evidente que a decisão do que fazer nos exemplos acima expostos é (ou pelo menos em nosso modelo social deve ser) totalmente individual. Entretanto, terceiros sempre podem agir para que uma troca em que não estão diretamente envolvidos ocorra em seu favor. Vamos, então, entender os efeitos da mobilidade urbana na vida das pessoas, para voltar aos exemplos citados com estilo no final do texto. Os deslocamentos possuem quatro efeitos diretos na vida das pessoas: o tempo perdido (que pode afetar ou até impedir a realização de diversas atividades do dia-a-dia), a distância percorrida (que pode aumentar para tentar reduzir o tempo de uma viagem), o conforto (ninguém gosta de ônibus…

A turbulência política e a blindagem econômica

Já estamos tão acostumados, que as novas denúncias de corrupção já não provocam impacto, passaram a fazer parte do cotidiano. Mas a turbulência persiste e o ambiente político permanece em polvorosa. O governo enfraquecido por nova denúncia da PGR prepara-se para contornar mais uma pressão dos fatos, agora abrangendo nove denunciados, sendo que alguns deles já estão presos e nos demais observamos personagens da mais alta confiança do presidente e que fazem parte do núcleo principal de governo. Novamente vamos acompanhar o enfadonho processo de desconstrução da denúncia que passará a ter prioridade na Câmara. Mais uma vez teremos os “acertos”, eventualmente nebulosos, em que os deputados “cobram” para votar com o Temer, o único presidente que conseguiu ser denunciado por duas vezes. O STF vai decidir sobre a validade das delações da J&F na semana que vem e, posteriormente, enviará denúncia contra Temer para a Câmara. Neste tempo, permanece tudo parado neste país que tanto necessita de reformas. Já há consenso que a reforma da previdência, se retomada, ficará restrita à idade mínima. No mais, o governo atual vai caminhar como o lamentável final de governo do ex-presidente Sarney, arrastando-se para um final sem glória, impopular e improdutivo. Enquanto Temer está tratando da estratégia para se defender da nova denúncia, surpreendentemente na área econômica estão aparecendo boas notícias. A taxa de juros está em constante redução (no momento em 8,25% ao ano), reflexo de uma inflação em queda e abaixo do centro da meta (acumulado em 12 meses em 2,46% no período encerrado no mês passado). Produção industrial passou de forte retração para alta de 0,8%. Crescimento fabuloso, ajudado por fatores climáticos, da safra de grãos. Produção de automóveis em forte expansão. O PIB do segundo trimestre superou as expectativas, aumentou o investimento estrangeiro direto, o risco Brasil caiu…