Edição 24

15/02/2018

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sábado, 24 de fevereiro de 2018
Cultura

Todo carnaval tem seu fim

Quem sabe, sabe, conhece bem como é gostoso pular o carnaval. Porém, como tudo na vida, exceto a tristeza, a comemoração acaba. Para quem está melancólico sem os blocos, se recuperando daquela ressaquinha de leve ou pensando em como encarar o mundo de novo daqui pra frente, aqui vai uma playlist para alimentar os ouvidos e inaugurar a contagem: já faltam menos de 365 dias para o próximo carnaval - e que a gente consiga se recuperar desse até lá!

Empoderamento na tela grande

No primeiro ano de O Quinze, fugi um pouco das séries e resolvi escrever sobre cinema, uma vez que estamos na maratona pré-Oscar, que este ano acontece no dia 4 de março.  Como gosto sempre de falar mais bem do que mal, costumo postar aqui meus humildes pontos de vista sobre produções que admirei, outros que me arrebataram e ainda os que me chamaram a atenção de alguma forma. Nessa coluna, falo de Pantera Negra e Me chame pelo seu nome. Vamos a eles! Pantera Negra: Um belo gol da Marvel Studios! Que história bacana, bem contada, trazendo à luz um personagem pouco conhecido do cânone dos quadrinhos. No filme, o Pantera Negra foi introduzido em “Capitão América: Guerra Civil”. Já nos quadrinhos, o super-herói foi o primeiro herói negro criado na indústria de HQs dos Estados Unidos. Estreou em 1968 e abriu caminho para o surgimento de outras super-personagens de descendência africana, como Falcão (1969) e Luke Cage (1972), ambos também da Marvel Comics. O mais interessante é que Pantera Negra tem como particularidade ser um negro que já nasceu empoderado: ele é, além de uma super-herói, o Rei T´Challa, regente de uma nação africana hiperavançada social, econômica e tecnologicamente, construída sobre uma fonte de vibranium, um metal alienígena responsável pelos avanços científicos e pelos poderes dos panteras negras. A personagem representava uma crítica ferrenha ao racismo em um período de exacerbação da discriminação extrema nos Estados Unidos, com a luta dos negros por seus direitos civis e a ascensão de líderes como Martin Luther King. E o filme representa muito bem essa essência! É poderoso, majestoso e inspirador. Wakanda certamente é um país onde qualquer um gostaria de viver.  Nele, todos são saudáveis e felizes. E, mesmo em suas disputas e políticas internas, existe a honra, o respeito…

Espetáculo “Arigós”renova olhar sobre a Amazônia

Concebido como um espetáculo panorâmico sobre a Amazônia desde o início do século XX à migração de nordestinos para região durante a Segunda Guerra Mundial, “Arigós – Primeiros Riscos da Borracha” entrecruza os olhares sobre a selva como paraíso verde e a ocupação humana desordenada, agressiva e massiva da região. Ao contrapor homem e natureza, baseado em excertos de “À margem da história”, de Euclides da Cunha, e em textos do ator e dramaturgo Murilo de Paula, a peça compõe uma grande narrativa fragmentada em que se sobressaem os sons, os gestos e os percursos do migrante nordestino em terras amazônicas. A montagem escapa do realismo para evocar o mundo onírico e sensorial dos que sonharam, viveram na mata e conheceram seus mistérios, mantendo o estranhamento do visitante diante do grandioso. Em um dos poucos diálogos, um desses seringueiros ou arigós (pássaros migratórios ou, em outra versão, peixes que se deslocam em cardumes) explica que saiu do “assado para o cozido”, trocando o árido Nordeste pela umidade amazônica. A imagem esclarece de maneira popular a troca de cenário do nordestino diante do sertão pela selva, em diferentes espaços de luta com o meio-ambiente. Tal comparação, no entanto, é apenas um flash realista da aventura que o espetáculo propõe ao espectador, às vezes cifrado para quem não conhece a região amazônica e a história de exploração da borracha. O espetáculo da Cia. Mundu Rodá, de São Paulo, constitui uma novidade estética em vários sentidos, a começar por uma escolha não documental do processo de migração dos nordestinos para a Amazônia, iniciada de maneira espontânea em 1877 devido à seca nordestina, e depois de maneira programada, durante o governo de Getúlio Vargas, a partir de 1942, para reforçar a produção de borracha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao dirigir o documentário “Soldados…

Bom programa para a folia

O carnaval está batendo na porta e sugiro nessa coluna algumas séries e filmes bem bacanas para fugir da folia ou para curtir entre um bloco e outro. [caption id="attachment_3583" align="alignright" width="300"] Legion[/caption] Estreias da Netflix: em fevereiro, o catálogo do canal de streaming é atualizado com boas estreias. Entre elas, a “Legion” (no catálogo a partir do dia 14). A série estreou ano passado no FX. Para quem não viu, vale conferir a saga do mutante com múltiplas personalidades. O personagem é inspirado no universo dos X-Men e nos quadrinhos ele é filho do professor Charles Xavier. O seriado vai por um caminho não convencional, como a Fox tem feito com alguns produtos recentes do universo mutante. Tem um clima de psicodelia muito apropriado para a história da personagem. Entre os filmes, destaco “Guardiões da Galáxia”, considerado um grande acerto do universo Marvel no cinema (preste atenção na trilha sonora, uma beleza) e o belo e comovente “A garota dinamarquesa” (esse estreia no final do mês). [caption id="attachment_3584" align="alignleft" width="300"] Justiça Jovem[/caption] Justiça Jovem: estreia recente também na Netflix, essa série de animação dos personagens adolescentes da DC Comics é um grande acerto. O sucesso foi tanto que um personagem criado exclusivamente para o desenho, o Aqualad – na encarnação filho do Arraia Negra, inimigo do Aquaman – foi transportado para as HQs. O grupo formado por sidekicks dos super-heróis clássicos como Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha ganhou um desenho animado com roteiro consistente, que explorou bem a personalidade de cada membro do grupo. Inicialmente com duas temporadas, ambas no canal de streaming agora, o pedido insistente dos fãs rendeu a criação de uma terceira temporada, que estreia no segundo semestre desse ano. [caption id="attachment_3585" align="alignright" width="300"] Nise - O coração da loucura[/caption] Poder feminino: dois belos filmes, também…

O lado sombrio das viagens no tempo

Não. “Dark”, nova série da Netflix, não é uma nova “Stranger Things”.  O plot: uma cidadezinha no interior da Alemanha serve de cenário para uma série de acontecimentos inexplicáveis que abalam a localidade. Em 2019, Winden é abalada pelo suicídio de um de seus moradores, o desaparecimento de uma criança e o surgimento de um corpo. Aparentemente sem relação, esses três fatos vão se colidir e transformar a rotina de seus habitantes. Há semelhanças com “Stranger Things”? Sim, mas menos – muito menos - do que parece: um grupo de jovens é um dos núcleos da trama? Sim, mas não é o núcleo essencial. Viagens entre dimensões estão na lista? Pode ser. Há conexão com fatos ocorridos nos anos 80? Sim! Mas as referências param por aí.  Se formos mais fundo nas referências, “Dark” bebe em “Arquivo X”, (a subestimada) “Fringe” e “Twin Peaks”. Mas, para além disso, “Dark” é outra coisa. E é ai que reside o seu atrativo. A estética da série é muito inspirada em “Twin Peaks”. É sombria, carregada no cinza e nos tons pastéis. Existe cor mas quando elas aparecem podemos começar a tremer. Nesse clima absolutamente desolador, acompanhamos no primeiro episódio o suicídio de Michael Kahnwald que, antes de se enforcar, deixa uma carta para ser aberta somente depois de um determinado dia e horário. Michael é pai de Jonas, um dos personagens centrais da trama. O adolescente sofreu um colapso nervoso depois da morte do pai e volta ao colégio meses depois do incidente. Mas ele não está livre de sofrer outra paulada: ao ir com amigos visitar uma antiga caverna nos arredores da cidade, o irmão mais novo de um deles desaparece sem deixar vestígios debaixo de sua vista. Acionadas as autoridades, que começam as buscas pelo menino, filho do policial Ulrich…

Vida quer viver: crônicas de bem-estar (com receitas e dicas)

Por Sonia Hirsch*   Pé de milho nasce dentro do bueiro, no alto do viaduto. Arbustos crescem em postes e telhados, se deixar viram árvores. Ervas medicinais e flores invadem frestas em calçadas, muros, ruas. Passarinhos viajam meio mundo para se reproduzir, depois voltam para casa, como as tartarugas. Bactérias se tornam resistentes aos antibióticos. Fungos muito vivos surgem da matéria morta. Não importam a economia, a política, a doutrina, a tecnologia, os amores, nem mesmo a morte: vida quer viver. No mais quente, no mais frio, no mais úmido ou ventoso ou seco, vida quando morre vira comida para outra vida. Há uma tensão na existência e ao mesmo tempo uma calma, porque tudo se repete sempre. O sol nasce e se põe, a lua volta, chove, a maré esvazia e enche. A planta manda para longe suas sementes de modo que brotem fora de sua sombra. Insetos criam falsos olhos nas costas para enganar predadores. Lagartas peludas tecem com seus próprios pelos os casulos que as transformarão em borboletas. Tudo porque vida quer viver. O conjunto de crônicas deste livro é voltado para manobras de viver bem. Estimula a atenção para aspectos fundamentais da vida como alimentação, movimento, pensamento, respiração, autoconhecimento. Procura despertar o desejo de saúde e oferece dicas e receitas. Dando graça às páginas, a jovem personagem desenhada por Cristina Tati viaja Brasil afora curtindo os dias. Passeia, trabalha, estuda, cozinha, namora, visita a família e as amigas. Tem dor nas costas e inseguranças como todo mundo. Dança, pratica ioga, come orgânicos, se exercita. De vez em quando mete o pé na jaca. Seu apelido é Vida. Ela quer viver.   *Sonia Hirsch é jornalista, escritora, editora e palestrante.