Edição 29

15/05/2018

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terça-feira, 22 de maio de 2018
Cultura

Maio, o mês dos devires abolicionista e libertário da nação brasileira

Abrem-se as cortinas do outono neste maio turbulento. Com elas, ventos amenos adentram aquela luminosidade de garantida visão em profundidade, o inverso da névoa seca que acontece no verão...  E o sol, translucido, amplifica a percepção dos horizontes, embora nem toda ação da natureza seja capaz de trazer a quebra da incerteza política que paira sobre nossas cabeças em nossa atual rotina como reles mortais em nossa Nação. É neste clima que minha jornada de colaboração se inicia na Revista O Quinze. Gostaria de apresentar, primeiramente, minhas congratulações as trabalhadoras e trabalhadores que, desde Sacco e Vanzetti, anarquistas italianos condenados à morte nos Estados Unidos, em 1922, são lembrados e lembradas pela sua heroica luta em defesa dos direitos trabalhistas. Por isso, o primeiro dia do mês de maio, particularmente, é a eles devotado como o dia dos trabalhadores. Aqueles que insistiam em dissipar os vestígios dos escravismos nas relações de trabalho no nascedouro do século XX. Abolicionistas e libertários, juntos, pelo planeta. Quero, sobretudo, registrar, no caso Brasil, uma homenagem para os sempre esquecidos trabalhadores e trabalhadoras escravos. Sim, eles eram trabalhadores que, por quase 400 anos, escreveram a história da produção econômica e da sociedade brasileira, através do trabalho compulsório a que o destino os submeteu.  A despeito do reiterado apagamento dos relatos históricos e manifestações políticas que concernem ao mês de maio, a energia produtiva dos trabalhadores escravos deveria ser reverenciada também neste mês dos trabalhadores. Os trabalhadores escravizados – e que permanecem ainda existentes –  foram os primeiros a edificarem a máquina produtiva do país, nas “plantations” do açúcar e do café. Oriundos das várias nações, reinos e impérios do continente africano bem como das inumeráveis nações indígenas de Pindorama, os escravizados constituem a ontogênese e o DNA da ideia e de trabalho nesta Nação. E,…

Sebastião – 20 anos sem Tim Maia

Há 20 anos a MPB perdeu seu síndico. Nascido em 28 de setembro de 1942, no Rio de Janeiro, Sebastião Rodrigues Maia tentou a vida na Jovem Guarda, encarnou um lado Black Music esotérico em sua fase Racional e, sobretudo, ganhou o Brasil com sua disco music dançante com a banda Vitória-Régia de guarda-costas. Não só cantor e compositor de mão cheia, o músico mostrou-se um grande líder no palco, em apresentações em que nem o maestro ficava parado. No dia 15 de março de 1998, Tim Maia passou mal em um show em Niterói e saiu do palco direto para a história da música popular, ocupando um posto que, sem sombras de dúvidas, jamais terá outro ocupante. De personalidade forte, brincalhão e conhecido também por faltar mais shows que comparecer, o gosto pela música de Tim é unanimidade no país. Se existe alguém que não gosta, um conselho: ouça de novo porque você ouviu errado.  

Seis passos para uma receita de sucesso

Demorei mas não podia deixar de escrever sobre a coqueluche do momento: “La casa de papel”. Conheço raros amigos e conhecidos que ainda não tenham visto a série espanhola da Netflix. Onde vou, só se fala nela, só se discute sobre ela. Lançada de mansinho, sem grandes campanhas de marketing e de divulgação, “La casa de papel” seduziu e criou uma legião de fãs que têm até torcidas por seus personagens favoritos. A série foi concebida originalmente como uma minissérie de 15 episódios. A Netflix exibiu nove deles editados em 13 partes. Em abril, ela lança o restante, como uma segunda temporada (na verdade, é a segunda parte da primeira temporada). E qual a razão desse sucesso todo? Listo aqui seis delas: Uma boa história: o argumento em si não é nada original – um grupo de ladrões com diferentes habilidades é reunido por um homem misterioso para executar o “roubo do século” – no caso, a tomada da Casa da Moeda. “Onze homens e um segredo” é apenas uma de várias referências, para não nos estendermos muito. “Cães de aluguel”, de Tarantino, me parece outra inspiração, principalmente na nomeação dos personagens (se no filme de Tarantino os ladrões têm nomes de cores, em “La casa de papel”, eles têm nomes de cidades). Mas do que adiante ser original se não se souber contar uma boa história? E esse é o objetivo da série espanhola. Nada do que está lá é inédito. E quem souber fazer contas vai deduzir inclusive uma ou outra virada da história. Mas “La casa de papel” não está presa ao ineditismo. E sim, a se propor a entregar para o seu público o que pretende. E ela faz direitinho: a aventura dos ladrões – a maioria bem intencionada - para conseguir alcançar seu objetivo ao…

Todo carnaval tem seu fim

Quem sabe, sabe, conhece bem como é gostoso pular o carnaval. Porém, como tudo na vida, exceto a tristeza, a comemoração acaba. Para quem está melancólico sem os blocos, se recuperando daquela ressaquinha de leve ou pensando em como encarar o mundo de novo daqui pra frente, aqui vai uma playlist para alimentar os ouvidos e inaugurar a contagem: já faltam menos de 365 dias para o próximo carnaval - e que a gente consiga se recuperar desse até lá!

Empoderamento na tela grande

No primeiro ano de O Quinze, fugi um pouco das séries e resolvi escrever sobre cinema, uma vez que estamos na maratona pré-Oscar, que este ano acontece no dia 4 de março.  Como gosto sempre de falar mais bem do que mal, costumo postar aqui meus humildes pontos de vista sobre produções que admirei, outros que me arrebataram e ainda os que me chamaram a atenção de alguma forma. Nessa coluna, falo de Pantera Negra e Me chame pelo seu nome. Vamos a eles! Pantera Negra: Um belo gol da Marvel Studios! Que história bacana, bem contada, trazendo à luz um personagem pouco conhecido do cânone dos quadrinhos. No filme, o Pantera Negra foi introduzido em “Capitão América: Guerra Civil”. Já nos quadrinhos, o super-herói foi o primeiro herói negro criado na indústria de HQs dos Estados Unidos. Estreou em 1968 e abriu caminho para o surgimento de outras super-personagens de descendência africana, como Falcão (1969) e Luke Cage (1972), ambos também da Marvel Comics. O mais interessante é que Pantera Negra tem como particularidade ser um negro que já nasceu empoderado: ele é, além de uma super-herói, o Rei T´Challa, regente de uma nação africana hiperavançada social, econômica e tecnologicamente, construída sobre uma fonte de vibranium, um metal alienígena responsável pelos avanços científicos e pelos poderes dos panteras negras. A personagem representava uma crítica ferrenha ao racismo em um período de exacerbação da discriminação extrema nos Estados Unidos, com a luta dos negros por seus direitos civis e a ascensão de líderes como Martin Luther King. E o filme representa muito bem essa essência! É poderoso, majestoso e inspirador. Wakanda certamente é um país onde qualquer um gostaria de viver.  Nele, todos são saudáveis e felizes. E, mesmo em suas disputas e políticas internas, existe a honra, o respeito…

Espetáculo “Arigós”renova olhar sobre a Amazônia

Concebido como um espetáculo panorâmico sobre a Amazônia desde o início do século XX à migração de nordestinos para região durante a Segunda Guerra Mundial, “Arigós – Primeiros Riscos da Borracha” entrecruza os olhares sobre a selva como paraíso verde e a ocupação humana desordenada, agressiva e massiva da região. Ao contrapor homem e natureza, baseado em excertos de “À margem da história”, de Euclides da Cunha, e em textos do ator e dramaturgo Murilo de Paula, a peça compõe uma grande narrativa fragmentada em que se sobressaem os sons, os gestos e os percursos do migrante nordestino em terras amazônicas. A montagem escapa do realismo para evocar o mundo onírico e sensorial dos que sonharam, viveram na mata e conheceram seus mistérios, mantendo o estranhamento do visitante diante do grandioso. Em um dos poucos diálogos, um desses seringueiros ou arigós (pássaros migratórios ou, em outra versão, peixes que se deslocam em cardumes) explica que saiu do “assado para o cozido”, trocando o árido Nordeste pela umidade amazônica. A imagem esclarece de maneira popular a troca de cenário do nordestino diante do sertão pela selva, em diferentes espaços de luta com o meio-ambiente. Tal comparação, no entanto, é apenas um flash realista da aventura que o espetáculo propõe ao espectador, às vezes cifrado para quem não conhece a região amazônica e a história de exploração da borracha. O espetáculo da Cia. Mundu Rodá, de São Paulo, constitui uma novidade estética em vários sentidos, a começar por uma escolha não documental do processo de migração dos nordestinos para a Amazônia, iniciada de maneira espontânea em 1877 devido à seca nordestina, e depois de maneira programada, durante o governo de Getúlio Vargas, a partir de 1942, para reforçar a produção de borracha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao dirigir o documentário “Soldados…