Edição 30

01/06/2018

ver edições anteriores

domingo, 19 de agosto de 2018
Cultura

O nascimento da Peregrinação ao Quilombo dos Palmares

A Peregrinação da Serra da Barriga Em 6 de fevereiro de 2017, acompanhei a terceira peregrinação na Serra da Barriga, localizada no município União dos Palmares, nas Alagoas, juntamente com 150 pessoas, dentre elas pesquisadores, professores, estudantes e formadores de opinião, religiosos de matrizes africanas e cristãos, capoeiristas, turistas e público em geral, tanto local como de outros municípios e mesmo de outros países. Este cortejo de celebração coletiva que constitui a peregrinação a Palmares articula uma grande movimentação de pessoas que, ao se realizar, percorre um caminho rustico, por dentro de um conjunto de matas atlânticas, próximo ao litoral, na conformação da Serra da Borborema. O caminhante ou peregrino encontrará um ambiente circundante que compreende paisagem natural e edificada, repleta de palmeiras que, de acordo com os relatos dos historiadores, é responsável pelo nome Palmares. E, ao atravessar aquela vereda histórica, marco de um saber lá instalado de modo imaterial, algo que é considerado sagrado e percebido pelas teias da sensibilidade daqueles que organizam, participam e se engajam naquela tarefa do caminhar. A peregrinação é organizada “Em HONRA E REVERÊNCIA AOS ANTEPASSADOS – Vigília ao Extermínio do Quilombo de Palmares, em 1695”, na localidade daquele tradicional Quilombo e foi convocada pela ONG Baobá Raízes e Tradições, liderada pela Yalorixá Neide Oyá D’Oxum. Se, por um lado, identificamos neste projeto um objetivo de divulgação do patrimônio histórico cultural da Serra da Barriga e a promoção de sua inserção no roteiro turístico alagoano, por outro lado devemos considerar que este movimento incorpora também as marcas dos inumeráveis movimentos peregrinos e, em tese, aproxima-se das características e atividades mentais e corporais daquilo que conota a qualidade das peregrinações. No entanto, esta peregrinação ao Parque da Serra da Barriga tem uma singularidade, pois ela consegue ir além das tradicionais peregrinações. A começar pela…

MIMO Festival Amarante anuncia programação em Portugal

Por Rita Fernandes* De 20 a 22 de julho, a cidade de Amarante será palco da terceira edição internacional do MIMO Festival. O evento multicultural, que nasceu no Brasil há 15 anos, anunciou recentemente sua programação em Portugal. Serão 53 atividades gratuitas, entre música, cinema, programa educativo e infantil, fórum de ideias, roteiro cultural, chuva de poesia e uma exposição inédita de Amadeo de Souza-Cardoso. Durante três dias, Amarante vai receber artistas de 16 nacionalidades. Será uma oportunidade única para conhecer nomes relevantes que se apresentam pela primeira vez em Portugal, como é o caso de Matthew Whitaker Trio (EUA), do supergrupo Hudson com Jack DeJohnette, John Scofield, John Medeski e Scott Colley (EUA), GoGo Penguin (Inglaterra), Shai Maestro Trio (Israel), além de três artistas brasileiros: Baiana System, Almério e Moacyr Luz. Mas também para rever grandes artistas e grupos como Goran Bregovic Wedding and Funeral Band (Sérvia), Otto (Brasil), Orquestra Chinesa Cheong Hong de Macau (China), Timbila Muzimba (Moçambique), Pablo Lapidusas International Trio (Argentina/Brasil/Cuba), Dona Onete (Brasil), Noura Mint Seymali (Mauritânia), Rui Veloso, Dead Combo, Bruno Pernadas e Marta Pereira da Costa (Portugal). Desde a sua primeira edição em Olinda, há 15 anos, o MIMO Festival tem como proposta apresentar novos artistas, além de homenagear nomes consagrados. Essa união possibilita a integração do público com representantes de diferentes culturas e gêneros musicais, num festival que tem como principal marca a diversidade artística. No Brasil, o MIMO Festival 2018, que é apresentado pelo Ministério da Cultura e pelo Bradesco, vai acontecer em quatro cidades: Paraty, de 28 a 30 de setembro, Rio de Janeiro, de 15 a 17 de novembro, São Paulo, 19 e 20 de novembro, e Olinda, de 23 a 25 de novembro. A programação dos eventos será divulgada a partir de agosto. [caption id="attachment_3807" align="aligncenter" width="1000"] Baiana System. Foto:…

Exposição Sobrevoo: esculturas a partir de aviões desconstruídos, no Centro Cultural dos Correios

Por Rita Fernandes*   São 20 obras de médias e grandes dimensões a partir de aviões desconstruídos e transformados em esculturas. A exposição individual Sobrevoo, composta de esculturas e assemblages (colagens com objetos e materiais tridimensionais), do artista paulista Marcos Amaro, está em cartaz, com entrada gratuita, até 24 de junho no Centro Cultural dos Correios. A curadoria é de Ricardo Resende. Amaro é “um inventor que tem gosto de reinventar as coisas”, nas palavras do curador. O artista tem realizado exibições de suas esculturas e obras em diversos suportes ao longo dos últimos anos em grandes feiras nacionais e internacionais. Partes de aviões são a principal matéria-prima das criações apresentadas, quase todas recentes e nunca antes exibidas. Além dos pedaços de aeronaves, rígidos, tecidos surgem nos seus interstícios, trazendo um contraponto de suavidade e explicitando substratos de memória que ecoam no trabalho do artista: apaixonado por aviação, Amaro (que já pilotou e tem brevê) é filho de um aviador e de uma estilista. Mas a memória e acúmulo de materiais, muitas vezes retirados de outros objetos, deslocados e ressignificados, caso de pneus, turbinas e asas, são uma espécie de paixão pela aviação às avessas, como explica o curador. Nada ali é feito para voar novamente, destaca Ricardo Resende, e os pedaços de avião e outros materiais descartados, usados e envelhecidos, como feltro, madeira, ferro, plástico, pneu, cano, corda, skate, lâmpada fluorescente, água, colchão, aparelho de televisão, intercalados com amarrações e soldas, se transformam “em um amontoado de coisas organizadas, sem deixar de evidenciar o equilíbrio precário das peças, esculturas e instalações em seu estado bruto”, diz no texto da exposição. Para Resende, as obras, de médias e grandes dimensões - chegam a ter mais de quatro metros de largura e cinco metros de altura, em alguns casos – resultam…

Maio, o mês dos devires abolicionista e libertário da nação brasileira

Abrem-se as cortinas do outono neste maio turbulento. Com elas, ventos amenos adentram aquela luminosidade de garantida visão que favorece um olhar em longa profundidade, inversamente distinto da névoa seca que ocorre no verão...  E o sol, translucido, amplifica a percepção dos horizontes, embora nem toda ação da natureza aqui presente seja capaz de trazer a superação da incerteza política que paira sobre nossas cabeças, nesta atual rotina em nossa Nação. É neste clima que minha jornada de colaboração se inicia na Revista O Quinze. Gostaria de apresentar, primeiramente, minhas congratulações as trabalhadoras e trabalhadores que, desde Sacco e Vanzetti, anarquistas italianos condenados à morte nos Estados Unidos, em 1922, são lembradxs pela heroica luta em defesa dos direitos trabalhistas. Por isso, o primeiro dia do mês de maio, particularmente, é a eles devotado como o dia dos trabalhadores. Aqueles que insistiram em dissipar os vestígios dos escravismos nas relações de trabalho no nascedouro do século XX. Abolicionistas e libertários, juntos, pelo planeta. Quero, sobretudo, registrar, no caso Brasil, uma homenagem para os sempre esquecidos trabalhadores e trabalhadoras escravizados. Sim, eles foram trabalhadores que, por quase 400 anos, escreveram a história da produção econômica e da sociedade brasileira, através do trabalho compulsório a que o destino os submeteu.  A despeito do reiterado apagamento dos relatos históricos e manifestações políticas que concernem ao mês de maio, a energia produtiva dos trabalhadores escravos deveria ser reverenciada neste mês dos trabalhadores. Os trabalhadores escravizados – ainda existentes –  foram os primeiros a edificarem a máquina produtiva do país, nas “plantations” do açúcar e do café. Oriundos das várias nações, reinos e impérios do continente africano bem como das inumeráveis nações indígenas de Pindorama, os escravizados constituíram a ontogênese e o DNA da ideia de trabalho nesta Nação. Evidentemente, que, em virtude do seu…

Sebastião – 20 anos sem Tim Maia

Há 20 anos a MPB perdeu seu síndico. Nascido em 28 de setembro de 1942, no Rio de Janeiro, Sebastião Rodrigues Maia tentou a vida na Jovem Guarda, encarnou um lado Black Music esotérico em sua fase Racional e, sobretudo, ganhou o Brasil com sua disco music dançante com a banda Vitória-Régia de guarda-costas. Não só cantor e compositor de mão cheia, o músico mostrou-se um grande líder no palco, em apresentações em que nem o maestro ficava parado. No dia 15 de março de 1998, Tim Maia passou mal em um show em Niterói e saiu do palco direto para a história da música popular, ocupando um posto que, sem sombras de dúvidas, jamais terá outro ocupante. De personalidade forte, brincalhão e conhecido também por faltar mais shows que comparecer, o gosto pela música de Tim é unanimidade no país. Se existe alguém que não gosta, um conselho: ouça de novo porque você ouviu errado.  

Seis passos para uma receita de sucesso

Demorei mas não podia deixar de escrever sobre a coqueluche do momento: “La casa de papel”. Conheço raros amigos e conhecidos que ainda não tenham visto a série espanhola da Netflix. Onde vou, só se fala nela, só se discute sobre ela. Lançada de mansinho, sem grandes campanhas de marketing e de divulgação, “La casa de papel” seduziu e criou uma legião de fãs que têm até torcidas por seus personagens favoritos. A série foi concebida originalmente como uma minissérie de 15 episódios. A Netflix exibiu nove deles editados em 13 partes. Em abril, ela lança o restante, como uma segunda temporada (na verdade, é a segunda parte da primeira temporada). E qual a razão desse sucesso todo? Listo aqui seis delas: Uma boa história: o argumento em si não é nada original – um grupo de ladrões com diferentes habilidades é reunido por um homem misterioso para executar o “roubo do século” – no caso, a tomada da Casa da Moeda. “Onze homens e um segredo” é apenas uma de várias referências, para não nos estendermos muito. “Cães de aluguel”, de Tarantino, me parece outra inspiração, principalmente na nomeação dos personagens (se no filme de Tarantino os ladrões têm nomes de cores, em “La casa de papel”, eles têm nomes de cidades). Mas do que adiante ser original se não se souber contar uma boa história? E esse é o objetivo da série espanhola. Nada do que está lá é inédito. E quem souber fazer contas vai deduzir inclusive uma ou outra virada da história. Mas “La casa de papel” não está presa ao ineditismo. E sim, a se propor a entregar para o seu público o que pretende. E ela faz direitinho: a aventura dos ladrões – a maioria bem intencionada - para conseguir alcançar seu objetivo ao…