Edição 24

15/02/2018

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sábado, 24 de fevereiro de 2018
Convidado Especial

Febre amarela, malária, dengue? Inhame inhame!

Por Sônia Hirsch*   A saúde é simples, as doenças é que são complicadas. Por séculos e séculos as populações tropicais sobreviveram comendo apenas o que dava no local onde tinham suas aldeias. Nas regiões úmidas, ladeando as grotas onde grassavam mosquitos, sempre houve fartura de inhame – na Ásia, na África, na América do Sul. Fácil de colher, fácil de preparar e ainda por cima gostoso, o inhame se tornou um dos principais alimentos básicos desses povos. O que não se sabia é que, durante séculos e séculos, o pequeno e cabeludo inhame estava protegendo as gentes da malária, da dengue, da febre amarela. E eis que chegou a mandioca, aipim, também deliciosa e fácil. Que além do mais dava boa farinha, própria para guardar ou fazer pão, goma para a tapioca de cada dia e ainda bebidas alcoólicas como cauim, alué e tiquira, que ajudavam a esquecer e sonhar. O inhame ficou pra lá. As gentes começaram a morrer de malária, de dengue, de febre amarela. Isso foi muito bem observado na África, onde as roças de inhame foram substituídas por seringais. Comer inhame continua funcionando para evitar e tratar as doenças transmitidas por mosquitos. Há algo no inhame, talvez o altíssimo teor de zinco, que neutraliza no sangue o agente infeccioso transmitido pelo mosquito. Diz o povo que é seu visgo que tem poderes. Não se sabe ao certo. A pesquisa científica ainda não se interessou. Até pouco tempo atrás circulava nas farmácias um tônico centenário à base de inhame e salsaparrilha, o Elixir de Inhame Goulart, usado até como coadjuvante no tratamento de sífilis. A Anvisa não renovou a licença por falta de comprovação da eficácia. Nada corre mais perigo hoje em dia do que uma coisa barata com propriedades medicinais. (Não confundir com um tal…

As linhas da vida

Por Carolina Guimarães* Começo de ano é sempre momento de reflexão, fechamento de um ciclo para início de outro. Momento de sonhar e também de planejar para que as resoluções não terminem em frustrações. Hora de pensar nos caminhos a se traçar e quais linhas nos levarão aos nossos destinos. Minha linha por 5 anos teve local e nome: Linha 580. Ela foi a linha que resultou mais viável na vida que decidi ter: morar perto do trabalho. Tive muita sorte anteriormente de ter morado em países onde o transporte público é uma prioridade e a oferta é boa. Essa experiência supriu minha vontade de independência de locomoção que muitos assumem ao tirar a carta de motorista. Na busca por emprego, encontrei um trabalho no Rio. O que mais me assustava era a possibilidade de perder minha mobilidade na cidade, não desfrutar de espaços públicos e perder o contato com pessoas de vários lugares. Sabia que as coisas iam mudar, e a sensação de segurança era o que eu mais ia sentir falta. De certa forma consegui minimizar essas perdas. Não que essa seja uma realidade para todos, longe disso, mas fiz questão de buscar moradia perto de transportes públicos de massa, era um fator tão importante quanto o apartamento mesmo. Claro que essa variável refletiu no custo do aluguel, mas também era um custo da minha felicidade. Triste pensar que bairros que oferecem mais serviços e um bom urbanismo são mais caros. Ainda hoje apenas 47% e 25% da população no Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, estão a 1 km de distância do trabalho de transporte de alta ou media capacidade.[1] Para uma pessoa que não dirige, morar perto do trabalho não é só prazeroso como essencial. Considerando que o transporte era um ingrediente tão importante na…

A metrópole tem futuro

Por Vicente Loureiro* Em tempos de grave crise econômica, fiscal e política, como vivemos no país, e em particular, no Estado do Rio, fica difícil fazer as pessoas acreditarem que as coisas vão melhorar e que, em um futuro não muito distante, voltaremos a dirigir melhor nossos passos na direção do desenvolvimento mais justo e equânime. Falamos, especialmente, da região metropolitana do Rio, com seus 21 municípios e mais de 12 milhões de habitantes. Ter abandonado a gestão compartilhada dos assuntos de interesse comum, presentes na vida metropolitana, para uma gestão por projetos setoriais e especializados gerou melhorias, é verdade, mas deixou sequelas. Reforçou a exclusão e acentuou a distância entre os padrões de qualidade de vida oferecidos à população. Temos, dentro dos limites metropolitanos, os piores e os melhores índices de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil. Um modelo concentrador de renda e de oportunidade não acontece só nas relações econômicas. Ele rebate-se com a mesma perversidade no território. E o da nossa região metropolitana confirma e recalca tal segregação. Estamos perto de ver concluído, pela primeira vez, um Plano Diretor, destinado a orientar o desenvolvimento urbano de modo integrado para a região. Isso significa dizer o que precisa e o que deve ser feito para mudar o modo de fazer ou refazer a metrópole, distinto do adotado e vigente nas últimas décadas, um modelo concentrador de oportunidades e de qualidade de vida com pedaços privilegiados do território, numa periferia marcada por urbanização precária e acumuladora de passivos urbanísticos, sociais e ambientais. É, portanto, necessário e é preciso, se possível, mudar este jeito de produzir e reproduzir a metrópole. E até agora a principal diretriz do Plano, em elaboração, é mudar para melhorar, e não continuar perseguindo melhorias aqui e acolá e continuar acreditando que assim se mudará as condições…

O Trump do Século

Por Fábio Caiado* Atrevo-me aqui a escrever sobre um personagem bastante controverso: Donald Trump. Desde sua candidatura à presidência do EUA até hoje, é um dos nomes mais lidos nos noticiários do mundo. Amplamente criticado pela imprensa, Trump está finalmente dizendo ao que veio com a recente aprovação da sua Reforma Tributária. Vamos ao histórico, às ideias e aos fatos. O histórico de sua candidatura é tão controverso quanto ele. No início, quando surgiram os primeiros rumores da candidatura, o mundo literalmente riu disso. Virou piada. Ninguém levou a sério, e no momento seguinte ele estava pré-candidato. Continuou totalmente desacreditado, porém crescendo nas pesquisas. Tornou-se o candidato escolhido pelo seu partido e iniciou uma campanha com uma série de pontos falhos e controversos. Seu jeito apolítico sincero, de quem diz o que pensa, é péssimo em uma campanha presidencial. E ele estava disputando contra a sucessão do todo poderoso Obama, o primeiro presidente negro que militava então para a primeira presidente mulher, tendo a seu favor as altíssimas taxas de aprovação do seu governo. Obama conseguiu o que muitos consideravam impossível: perder as eleições. O mundo ainda não se recuperou dessa derrota nas eleições americanas. A reviravolta marcou e transformou o primeiro quarto deste século. Recentemente, uma pesquisa apontou entre 91 e 93% de citações negativas sobre Trump na imprensa - ele é literalmente massacrado diariamente por tudo que é publicado pelos americanos. Entre os formadores de opinião foi igualmente detonado. Até a melhor atriz do mundo atual, Meryl Streep, se dedicou a tal repulsa. Mas isso tem explicação. Antes de entender o Trump, precisamos entender o Obama e nossas aspirações de classe média. Por que classe média? Porque somos nós as pessoas que escrevem para veículos de comunicação e espalham suas ideias. Há muito que a imprensa não pertence…

Vida quer viver: crônicas de bem-estar (com receitas e dicas)

Por Sonia Hirsch*   Pé de milho nasce dentro do bueiro, no alto do viaduto. Arbustos crescem em postes e telhados, se deixar viram árvores. Ervas medicinais e flores invadem frestas em calçadas, muros, ruas. Passarinhos viajam meio mundo para se reproduzir, depois voltam para casa, como as tartarugas. Bactérias se tornam resistentes aos antibióticos. Fungos muito vivos surgem da matéria morta. Não importam a economia, a política, a doutrina, a tecnologia, os amores, nem mesmo a morte: vida quer viver. No mais quente, no mais frio, no mais úmido ou ventoso ou seco, vida quando morre vira comida para outra vida. Há uma tensão na existência e ao mesmo tempo uma calma, porque tudo se repete sempre. O sol nasce e se põe, a lua volta, chove, a maré esvazia e enche. A planta manda para longe suas sementes de modo que brotem fora de sua sombra. Insetos criam falsos olhos nas costas para enganar predadores. Lagartas peludas tecem com seus próprios pelos os casulos que as transformarão em borboletas. Tudo porque vida quer viver. O conjunto de crônicas deste livro é voltado para manobras de viver bem. Estimula a atenção para aspectos fundamentais da vida como alimentação, movimento, pensamento, respiração, autoconhecimento. Procura despertar o desejo de saúde e oferece dicas e receitas. Dando graça às páginas, a jovem personagem desenhada por Cristina Tati viaja Brasil afora curtindo os dias. Passeia, trabalha, estuda, cozinha, namora, visita a família e as amigas. Tem dor nas costas e inseguranças como todo mundo. Dança, pratica ioga, come orgânicos, se exercita. De vez em quando mete o pé na jaca. Seu apelido é Vida. Ela quer viver.   *Sonia Hirsch é jornalista, escritora, editora e palestrante.

Movimenta, Pernambuco!

Por Rita Fernandes Uma nova força sonora ecoa em Pernambuco. São sons que vêm da terra, das influências do Agreste, da Zona da Mata, das cantorias do dia a dia, carregados ao mesmo tempo de contemporaneidades temáticas e harmônicas. Se na década de 1990 o movimento da geração de Fred Zero Quatro e de Chico Science definiu uma nova cena musical com o manguebeat, hoje os jovens artistas pernambucanos desse caldeirão multicultural preferem falar em uma nova “movimentação”. São artistas de diferentes estilos, vindos de regiões como Caruaru, Arcoverde, Goiana, Carpina, Olinda e Recife, que se juntam em pequenos espaços musicais da cidade, como Casa do Cachorro Preto e Creperia, e que se articulam principalmente nas casas uns dos outros. Foi por essa rede que a tal “movimentação” acabou ganhando forma e força, especialmente na sala da casa de Juliano Holanda, que abriga a maior parte dos encontros musicais. [caption id="attachment_3426" align="alignleft" width="300"] A cantora Isadora Melo. Foto: Rodrigo Ramos[/caption] “Pernambuco está borbulhando de artistas novos, com um talento absurdo”, diz o produtor do Palco Sunset do Rock in Rio, Zé Ricardo, responsável por levar Almério, Spok e Banda de Pífano Zé do Estado na última edição do megaevento de música. Mas a lista é longa, com nomes como Isadora Melo, Thiago Martins, Isabela Moraes, Marcello Rangel, Vinicius Barros, Ylana Queiroga, Thulio Oliveira, Juvenil Silva, Junior Black, Igor de Carvalho, Flaira Ferro, Aninha Martins, Gabi da Pele Preta, Barro, Vertinho Moura. O resultado dessa interseção de micro regionalidades é uma vitalidade criativa marcada especialmente por uma safra de trabalhos que têm privilegiado a palavra, a poética e o verso. “É como parar para vestir as canções, dar atenção às letras”, diz Isadora Melo. “O que marca a diferença dessa nova geração é que está acontecendo uma troca intensa, onde um…