Edição 29

15/05/2018

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terça-feira, 22 de maio de 2018
Comportamento

É hora de acordar

E como se fosse um raio caindo em sua cabeça, um dia você olha no espelho e se pergunta: Quem é esta pessoa refletida aí? Por que será que não a reconheço mais? Onde EU fui parar? E essas, são apenas algumas das inúmeras perguntas que começam a surgir em sua mente neste que, a princípio, parecia ser um dia fatídico. Sem conseguir conter a enxurrada, sua mente segue decodificando perguntas como: Quando parei de cuidar de mim? Em que momento parei de me importar com o meu corpo? Com minha alimentação? E minha saúde? O que houve para que eu deixasse que os outros fossem mais importantes do que EU? E assim os questionamentos seguiram brotando sem parar, um após o outro. Dolorosos e nitidamente desprovidos de respostas concretas. A sensação era de que este manancial nunca iria secar, de que esta cachoeira de perguntas iria continuar a jorrar, fosse lá de onde estivesse vindo? Para onde foi toda sua energia? Sua disposição? Aquele tesão pela vida? A sua alegria? Será que estas sensações tiraram férias e vão voltar ou será que partiram para outro lugar? E assim, repleto de questionamentos e nenhuma resposta, segue este dia intenso e “fatídico”. Hora te inspirando reflexões profundas, hora gerando arrependimento, culpa, raiva de si mesmo e até mesmo um medo do tempo. Será que ainda dá tempo? De repente, em meio a tudo que está passando pela sua mente vem uma majestosa pergunta, aquela que tem o poder de organizar todas as outras, aquela que por mais que seja uma pergunta parece até que traz consigo uma resposta: O QUE ESCOLHO FAZER DISSO TUDO A PARTIR DE AGORA? Neste momento você sente como se um raio de sol na luz da manhã entrasse por uma fresta da janela, dentro de sua…

CAR(rus)NAVAL(is) – e nada se acabar na quarta-feira

Porque são tantas coisas azuis E há tão grandes promessas de luz Tanto amor para amar de que a gente nem sabe Quem me dera viver pra ver E brincar outros carnavais Com a beleza Dos velhos carnavais Vinícius de Moraes   Morar no Rio de Janeiro traz algumas obrigações subcutâneas que precisamos acolher, escutar, e ter muito discernimento ou muito pouca vontade para conter e saber dizer “não”. Este ano deixei a vibração do carnaval passar lá em baixo na rua enquanto fechei a janela, liguei o ventilador, e coloquei minha playlist na caixinha de som. Desci depois na pracinha vestindo o maiô da natação com uma toalha de banho amarrada na cintura e uma touca transparente. Aquele meio caminho entre estar demasiado opositora e permitir não ser pega pelo tsunami purpurinado que invade as ruas da cidade. Este ano fiquei desenhando sonhos em planilhas cheias de cores e com metas e cronogramas, interrompidas por algumas idas na cozinha. Creme de abóbora com leite de coco e gengibre. Manga batida com canela e hortelã do meu vaso. Mamão maduro com granola caseira. Pão artesanal com o azeite da minha terrinha. Tomatinhos da xêpa com manjericão. Café, muito café, coado e perfumado. Este ano vi filmes da lista de espera, toquei violão, recebi amigas em casa, cochilei de tarde, cantarolei a minha música favorita do carnaval. Lembrei dos ensaios e eu te observando, quanto riso e quanta alegria, mais de mil palhaços no salão. Este ano pulei meu carnaval de dentro. Celebração da primavera que chega lá no norte, nas terras de onde ele vem, da festa de Isis fértil, rainha e deusa da criação, mãe do mundo. Festa de Ápis, o boi branco, junto a ela. Dos barcos e da celebração da abundância que chega, primeira festa dos primeiros raios quentes depois do inverno escasso. Festa da abundância, dessa era dourada infinita, dessa…

Duzentas e sessenta e seis luas

“Todos os seres vêm preparados para cumprir a sua tarefa, movidos pelo prazer profundo e pelo amor incondicional.” Ernst Götsch Tinha 12 anos. Não era tabu mas também não era outra coisa. Eu iria sangrar. Todos os meses durante muitos anos. Ia doer e ia doer todos os meses por muitos e muitos anos. Eu ia ter a cara com pintas, o corpo com pelos, o sovaco com cheiros, a gaveta com absorventes coloridos. Eu ia ter dias que não ia saber o que fazer, que o absorvente não estava e o banheiro não ia chegar a tempo. Eu ia ter vergonha, muita vergonha. Por muitos meses, muitos anos. E nunca deixaria de doer, nunca deixaria de esconder os absorventes, não iria falar sobre isso publicamente, não iria me orgulhar disso. Um dia talvez eu não sangrasse e não doesse, e talvez isso durasse 9 meses e mais um pouco. Aí seriam outras dores e outras batalhas. Mas até lá, ia doer. No inicio não sabia como vinha nem quando vinha, então ter sempre absorventes e parafernálias de lenços umedecidos comigo seria algo interessante a considerar. Fui levando a vida. 12 anos e já era mulher, e por ser mulher deveria me comportar como tal – dizia o mundo. Cruza a perna, não fala alto, sê a melhor aluna, se comporte em público. Não fale nunca, jamais, sobre o sangue que escorre pelas coxas e te banha o ventre por dentro todos os meses. Jamais faça isso. Sangue não se fala, se esconde. E isso é para sempre, todos os meses, até quando o mundo te chamar de velha porque não sangrarás mais. Teve o dia na colônia de férias, 1996. Mergulhei na piscina, primeiros dias, primeiros amigos, gargalhadas depois do banho de piscina, deitada naquela canga branca – essa…

A força do grupo

Um indivíduo, por mais forte, realizador e autossuficiente que seja, continua sendo apenas uma só pessoa. Pode caminhar mais rápido, porém, certamente, terá muito menos potencial para a realização do que em grupo; quer seja no âmbito pessoal ou profissional. Saber ter momentos de solidão escolhida como: meditação, algum esporte individual, hobbies e outras coisas mais, faz muito sentido para estar em contato consigo, se perceber e até mesmo facilitar os próprios relacionamentos. Só não é saudável que vire uma fobia social. Evoluir em conjunto é muito mais trabalhoso, por vezes mais lento, entretanto, muito mais evolutivo, criativo e satisfatório. Ao contrário do que pode parecer, crescemos muito mais quando vivenciamos nosso processo de lapidação evolutiva nos ambientes sociais, do que quando nos escondemos em nossas redomas, sob o pretexto de que não precisamos de nada e nem de ninguém. Este é um pensamento arrogante, de escassez e estagnação. Evoluir em grupo, seja familiar, profissional, religioso, dentre outros, irá exigir de cada integrante a lapidação de virtudes como paciência, compreensão, altruísmo, compromisso e vulnerabilidade. Por outro lado, quem é amparado por um grupo sólido, jamais enfrenta sozinho uma dificuldade, conta com múltiplas inteligências e forças para resolver situações muito desafiantes para uma pessoa só. Vale ressaltar que milhões de gotas unidas configuram um oceano e milhões de fagulhas reunidas configuram um incêndio. Sendo assim saiba escolher bem as pessoas que mais estarão próximas a você nas diversas áreas de sua vida pois, temos talentos diferentes e você irá perceber que cada pessoa tem sua melhor expressão em áreas distintas. Por esta razão se tornam muito mais prazerosas e produtivas as relações que se pautam nesta máxima expressão e não no máximo esforço. Em ambiente profissional algumas coisas são cruciais, jamais incentive fofocas, maledicência, baixo astral e mal humor. Procure ter…

As linhas da vida

Por Carolina Guimarães* Começo de ano é sempre momento de reflexão, fechamento de um ciclo para início de outro. Momento de sonhar e também de planejar para que as resoluções não terminem em frustrações. Hora de pensar nos caminhos a se traçar e quais linhas nos levarão aos nossos destinos. Minha linha por 5 anos teve local e nome: Linha 580. Ela foi a linha que resultou mais viável na vida que decidi ter: morar perto do trabalho. Tive muita sorte anteriormente de ter morado em países onde o transporte público é uma prioridade e a oferta é boa. Essa experiência supriu minha vontade de independência de locomoção que muitos assumem ao tirar a carta de motorista. Na busca por emprego, encontrei um trabalho no Rio. O que mais me assustava era a possibilidade de perder minha mobilidade na cidade, não desfrutar de espaços públicos e perder o contato com pessoas de vários lugares. Sabia que as coisas iam mudar, e a sensação de segurança era o que eu mais ia sentir falta. De certa forma consegui minimizar essas perdas. Não que essa seja uma realidade para todos, longe disso, mas fiz questão de buscar moradia perto de transportes públicos de massa, era um fator tão importante quanto o apartamento mesmo. Claro que essa variável refletiu no custo do aluguel, mas também era um custo da minha felicidade. Triste pensar que bairros que oferecem mais serviços e um bom urbanismo são mais caros. Ainda hoje apenas 47% e 25% da população no Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, estão a 1 km de distância do trabalho de transporte de alta ou media capacidade.[1] Para uma pessoa que não dirige, morar perto do trabalho não é só prazeroso como essencial. Considerando que o transporte era um ingrediente tão importante na…

Eu, em meio a mim mesmo, e o outro

Como seria viver em uma sociedade onde as pessoas são honestas consigo mesmas e consequentemente com as outras? Onde possamos falar o que sentimos e o que pensamos sem hipocrisia nem demagogia? Onde também saibamos o que é relevante comunicar e o que, na verdade, é apenas “meu ego” querendo me impor ao outro e vice-versa? Um sonho isso né? Agora o mais bacana é que é um sonho que pode ser CONQUISTADO. Por que conquistado? Pois estamos falando do conceito de autoridade individual e esta autoridade é construída, percebida e evolui com o tempo. O conceito de autoridade individual consiste em sabermos os nossos limites, o que podemos dar conta e o que ainda não podemos dar conta ou, até podemos, mas, não queremos. O que gostamos e portanto dizemos sim e o que não gostamos e assim damos limites, só que sem a necessidade de autoafirmação e sim, apenas um não. Ou até mesmo sabendo usar um berro de autopreservação do tipo, “não pisa no meu pé não”. Muito confuso? É assim mesmo quando começamos a navegar pelas águas da autoridade pessoal e decidimos ser honestos com nós mesmos, descobrir nossos próprios limites, nossas crenças, nossos pontos de flexão e inflexão. O interessante é que fazendo este processo e, chegando ao ponto de reconhecer a nós mesmos, desabrochamos a generosidade e a compaixão de reconhecermos que os outros também possuem flexibilidades e inflexibilidades, crenças e limites como nós, e isso torna mais fácil a empatia de nos abrirmos a perdoá-los e respeitá-los, como nos respeitamos e perdoamos. Viver dentro de sua própria autoridade pessoal é ser livre dentro de si mesmo. É não sentir euforia diante de um elogio e tão pouco raiva ou tristeza profunda diante de uma crítica. É poder dizer “não sei” e se sentir…